No futebol brasileiro, a bola nem sempre é a protagonista. Muitas vezes, o que domina a cena é o impulso de julgar.
Basta um lance polêmico, uma falha ou uma provocação para que a arquibancada se transforme em tribunal, onde a sentença costuma vir antes do replay, a indignação antecede a reflexão e a condenação dispensa contexto. Todos pedem justiça, mas quase sempre uma justiça que veste a camisa do próprio lado. Quando o erro favorece, relativiza-se; quando prejudica, vira escândalo. O futebol, nesse ponto, não inventa nada. Apenas revela.
Revela o torcedor, o dirigente, o comentarista, o cidadão. Expõe o quanto se perdeu a medida entre rivalidade e desumanização. A provocação sempre fez parte do jogo. A resenha inteligente, a ironia bem colocada, a provocação bem-humorada que termina em riso, isso é patrimônio da arquibancada. O problema começa quando o riso cede espaço ao prazer de humilhar, quando vencer já não basta e surge a necessidade de esmagar, expor, reduzir o outro a meme, a alvo, a caricatura.
Nesse ponto, o futebol reflete um comportamento conhecido: aquilo que incomoda em si mesmo encontra um alvo conveniente no outro, o que facilita o julgamento apressado, a hostilidade e até a desumanização.
As redes sociais ampliaram esse traço, dando velocidade ao julgamento, vitrine ao exagero e megafone à crueldade. Já não se trata de compreender o lance, mas de vencer a discussão, lacrar, recortar, distorcer e colecionar aplausos do próprio grupo. O jogo dura noventa minutos; o tribunal parece não ter fim.
Por isso o futebol incomoda tanto. Porque traz à tona aspectos como: a vaidade, a pressa, a intolerância, o moralismo de ocasião. No estádio, no sofá ou na tela do celular, cada reação diz menos sobre o lance e mais sobre quem reage.



