O ex-vereador Jairo Souza Santos Santos Júnior, o Dr. Jairinho, começou a prestar depoimento nesta terça-feira (2/6) no julgamento pela morte do menino Henry Borel, de 4 anos, no II Tribunal do Júri da Capital, no Centro do Rio de Janeiro. No tribunal, o réu negou ter agredido mulheres ou crianças e atribuiu acusações feitas por ex-namoradas a “especulações”.
Jairinho se apresentou aos jurados e, em seguida, comentou sobre alguns momentos da própria infância e da relação com a família. Com a voz embarga e em tom emocionado, ele falou sobre a importância da mãe em sua formarção e relembrou episódios da juventude com a irmã.
“Jesus vai colocar a gente no caminho da verdade”, disse o ex-vereador ao começar o interrogatório.

O réu também se emocionou ao falar sobre o próprio filho, que faz parte da defesa dele no julgamento. Jairinho disse que ele precisou adiantar matérias da faculdade para conseguir se formar e atuar no caso.
A pedido do advogado de defesa, Rodrigo Faucz, Jairinho não vai responder às perguntas da acusação nem da juíza responsável pelo caso. O interrogatório ocorre após o depoimento da mãe da criança, Monique Medeiros, que afirmou acreditar que Jairo foi o responsável pelo crime.
“Tudo que começaram a falar de mim é especulação. Vou fazer 50 anos. A gente faz escolhas insensatas. Uma das que eu fiz foram as traições. A Débora, que esteve aqui, falava comigo muito bem, mesmo depois do falecimento do Henry. Era uma pessoa que me procurava, que eu gostava. Não tem nem da parte dela, da Natasha ou da Monique relato de que eu tenha dado sequer um peteleco numa delas”, afirmou o ex-vereador.
Jairinho também criticou o processo e afirmou que o caso tem características incomuns. “Esse processo é tão fora da curva, que nós da defesa, a cada mês que se passa, nós temos acesso a novas provas do processo. Tem provas que a gente teve acesso em janeiro desse ano, provas que mudam completamente as coisas que estão acontecendo. Realmente é uma coisa para colocar o coração de vocês, colocar a verdade acima de tudo, aquilo que é o certo”, afirmou o réu.
Boletim de ocorrência feito por ex-companheira
No decorrer do julgamento, o ex-vereador foi questionado sobre um boletim de ocorrência feito por Ana Carolina, mãe de dois de seus três filhos, que o acusou de violência doméstica. Jairinho afirmou que a ex-companheira registrou queixa após ter descoberto uma traição da parte dele.
Ele também relatou que Ana Carolina, com que manteve um relacionamento por 14 anos, viu mensagens trocadas com outra mulher e pôs fim ao namoro .
“Foi o único momento em que tive alguma coisa. Por conta das mulheres que eu tive durante o relacionamento, ela me pegou no carro falando com uma menina. Eu já estava numa escala de traição. Um dos grandes arrependimentos da minha vida foi não permanecer casado com a Ana Carolina”, disse.
O ex-vereador disse que a discussão escalou quando Ana anunciou que terminaria o namoro. Ainda declarou que, naquele momento, tentou evitar o fim do relacionamento.
“Ela subiu o elevador falando que iria terminar. Desci e comprei uma pizza e um refrigerante. Ela tacou no chão, tentou me agredir por conta disso. Eu contendo ela, puxei para a cozinha. Foi uma gritaria danada. Minha sogra entrou. Ela falou que, se eu não saísse de casa, faria um boletim de ocorrência. Não acreditei, mas fui para a casa dos meus pais”, declarou Jairinho.
A defesa destacou que Ana Carolina informou à polícia que foi enforcada e puxada pelos cabelos. Jairinho, no entanto, negou a acusação feita por ela à época. “Não teve isso”, disse.
Jairinho destacou que, apesar do registro da ocorrência policial, a mulher retirou a queixa e o casal permaneceu junto por mais seis anos após o episódio. Durante o depoimento, ele também admitiu ter sido infiel em outras ocasiões ao longo do casamento e citou um relacionamento com Débora Mello Saraiva, que prestou depoimento como testemunha no julgamento.
Decorrer do jugalmento
- O depoimento teve início por volta das 16h50 desta terça, no julgamento que já é considerado o mais longo da história do Tribunal do Júri do Rio. Este é o nono dia de audiência, já na reta final do interrogatório.
- Ao longo das sessões, foram ouvidos investigadores, peritos, médicos, familiares, testemunhas ligadas ao caso e ex-namoradas de Jairinho. Agora, a expectativa é que os debates entre acusação e defesa aconteçam na quarta-feira (3/6).
- Após os depoimentos, o julgamento seguirá para a fase de debates entre acusação e defesa. Em seguida, os sete jurados que compõem o Conselho de Sentença decidirão pela condenação ou absolvição dos réus.
- A votação pode ter início já na quarta-feira ou se estender até quinta-feira (4/6).
Jairinho pediu para depor depois de Monique
A decisão de ouvir Jairinho após Monique foi tomada a pedido da defesa do ex-vereador. Os advogados Rodrigo Faucz e Alanis Matzembacher sustentaram que a mãe de Henry passou a atribuir exclusivamente a ele a responsabilidade pela morte da criança e que, por isso, o depoimento dela deveria ser prestado antes, garantindo o pleno exercício do contraditório.
Monique afirmou que foi orientada pela equipe jurídica de Jairinho a mentir nos primeiros depoimentos prestados à polícia. Ela também declarou ter mudado sua convicção sobre o caso. “Hoje, eu creio que foi o Jairo”, afirmou.
A mãe de Henry disse ainda que não tinha certeza sobre possíveis episódios de agressão contra o filho enquanto mantinha relacionamento com o ex-vereador. Segundo ela, teria reagido de forma extrema caso soubesse do que estava acontecendo.
“Se eu soubesse de alguma coisa, eu estaria respondendo pelo homicídio do Jairo ou enterrada do lado do meu filho”, declarou.
Jairinho responde pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, tortura e coação no curso do processo. Monique, por sua vez, é ré por homicídio qualificado por motivo torpe e mediante recurso que impossibilitou a defesa da vítima, além de tortura e coação no curso do processo.


