Quando a bola rolou, deu para enxergar de longe as propostas.
O CSA foi o CSA do Itamar Schülle, compacto sem a bola, agressivo no duelo, ataque direto como atalho, inversões longas e cruzamentos de intermediária para viver do segundo lance. Com um minuto, quase abriu o placar, Marcos Ytalo cruzou da direita e Ciel, livre, perdeu o tempo. Se encaixa ali, o clássico muda de temperatura na hora.
O CRB de Eduardo Barroca entrou com cara de time que estudou o adversário no detalhe. A amplitude ficou com Dadá e Baggio, abertos para esticar o campo, evitando flutuação por dentro com objetivo de dificultar a compactação. A intenção era clara: abrir intervalos entre zagueiro e lateral. Como os volantes do CSA perseguem individualmente os meias do galo, Ciel e Dudu possuem dificuldade na marcação, a troca de posições de Danielzinho e Pedro Castro buscava puxar o encaixe e soltar Crystopher atacando espaço com liberdade. O CSA, muito forte nos duelos, conseguiu segurar boa parte desse plano no primeiro tempo, o CRB rondou mais do que finalizou, e Wellerson trabalhou pouco.
Dois detalhes do primeiro tempo explicam o que viria depois. A volta de Henri elevou o nível defensivo do CRB, mais firme, mais rápido na cobertura, mais seguro no combate. Outra coisa, lição aprendida do último clássico: perdeu a posse no ataque, parou a transição do CSA com falta. Baggio e Crystopher tomaram amarelo exatamente por isso, frear o contra ataque ainda no nascedouro. Contra um time que acelera como o CSA, essa maldade tática vale ouro.
O segundo tempo começou com mais espaço. Buba teve liberdade para bater de fora e o CRB já assustou em bola parada, Pedro Castro cobrou, Mikael ganhou no alto e Wellerson salvou no reflexo. Na sequência, saiu o 1 a 0, numa jogada que conversa com o repertório do CSA ( CRUZAMENTOS DE INTERMEDIÁRIA) e também com o que o CRB preparou: cruzamento vindo da esquerda, Dadá colocou na medida e Mikael, na frente de Lucão, desviou para o canto. Gol de centroavante, gol de presença.
Só que aí o jogo virou com a cabeça. Na comemoração, Mikael provocou, esquentou com o banco, a confusão cresceu, o VAR chamou e veio a expulsão. Em quinze minutos, o CRB ficou na frente e ficou com um a menos. Era o tipo de cenário que pede treinador frio. Barroca foi.
A primeira reação foi rápida: percebeu que o time, além de perder estatura, perderia retenção de bola e referência, Danielzinho saiu, João Neto entrou. Itamar respondeu do jeito dele, empilhando gente na área. Terminou quase num 1-3-1-6, Samuel para fazer dois centroavantes, laterais empurrados ao mesmo tempo, Mateus Melo na meia, seis homens atacando a última linha do CRB. Teve Ronaldo Mendes entrando e saindo machucado em poucos minutos, e o CSA seguiu insistindo no jogo de cruzamentos, mas sem transformar isso em chance limpa. Superioridade numérica sem superioridade de ideias.
O ponto decisivo do clássico foi a leitura de Barroca sobre o momento. Ele entendeu que não era só defender, era defender com critério, ganhar tempo, travar o ritmo e escolher o contra ataque certo. A mexida final foi de manual. Colocou Wallace e fechou com três zagueiros, Henri, Fábio Alemão e Wallace, com Hereda e Lovat formando a linha de cinco. Luizão entrou para fortalecer bola aérea e duelo. Na frente do volante , Crystopher foi para a esquerda, Vinícius Barata aberto à direita, João Neto como referência para segurar, puxar falta, atacar espaço e dar respiro. O CSA continuou empurrando, porém o CRB já estava confortável no cenário.
A coroação veio no fim, não em bola longa, e sim em transição rápida, do jeito certo. Hereda achou um passe mesmo pressionado, Vinícius conduziu em velocidade, João Neto atacou espaço sem bola e arrastou marcação, a tomada de decisão foi perfeita, Crystopher apareceu para finalizar e matar o jogo.
O CRB, com um a menos, decidiu com cabeça fria. O CSA, com um a mais, ficou no volume e na insistência.
Um dado resume o tamanho do golpe: em um jogo, o CSA sofreu mais gols do que havia sofrido em sete partidas do campeonato.
Agora, o Rei Pelé vai trocar de clima no sábado, às 16h. O CRB joga com a vantagem de perder por um gol. O CSA precisa vencer por três para avançar direto, ou por dois para levar aos pênaltis. Clássico não tem moral, tem execução. No jogo de ida, o CRB executou melhor, até quando a própria explosão do seu artilheiro tentou estragar tudo.




