Ao fim do primeiro tempo, as redes sociais praticamente escalavam uma nova Seleção. Casemiro, Danilo e Rayan estavam entre os principais alvos das críticas. Paquetá já havia deixado a partida por lesão, o Brasil perdia por 1 a 0 e a expectativa era por uma revolução no intervalo.
Carlo Ancelotti pensou diferente.
Fez apenas a substituição obrigatória e manteve em campo jogadores que boa parte já havia condenado.
O problema, para ele, não eram as peças.
Era a maneira como o Brasil atacava.
Durante os primeiros 45 minutos, a Seleção temeu demais as transições japonesas. Danilo recebia a bola e, quase sempre, optava pelo passe de segurança. Rayan permanecia aberto, mas era pouco acionado em profundidade. O Brasil controlava a posse, porém evitava correr riscos para não oferecer o contra-ataque ao Japão. Tinha a bola, mas agredia pouco uma equipe muito bem organizada em um 1-5-4-1.
No intervalo veio o ajuste.
Sem desmontar a equipe, Ancelotti mudou completamente o comportamento ofensivo. Em muitos momentos, o Brasil passou a atacar em um 1-4-2-4. Danilo começou a ultrapassar Rayan com frequência, Endrick e Matheus Cunha passaram a ocupar mais o corredor central, Vinicius Júnior atraía dois marcadores, enquanto Casemiro e Bruno Guimarães passaram a pesar a área para potencializar o jogo pelos cruzamentos.
O empate não nasceu por acaso.
Antes de Casemiro balançar as redes, a Seleção já havia criado boas oportunidades pelo alto. Era o retrato de um plano claramente ajustado no vestiário.
Mas o xeque-mate ainda estava guardado.
Enquanto muitos apontavam Neymar como solução, Ancelotti enxergou que o jogo pedia outra característica. Martinelli entrou para atuar por dentro, oferecendo intensidade, ataque ao espaço e agressividade sem a bola.
A decisão se mostrou perfeita.
Nos acréscimos, apareceu uma identidade que começa a marcar este Brasil de Ancelotti: o perde, pressiona. Rayan reagiu imediatamente após a perda da posse, recuperou a bola ainda no campo ofensivo, Bruno Guimarães atraiu a marcação e encontrou Martinelli dentro da área. O domínio orientado eliminou o marcador e a finalização decretou a virada e a classificação brasileira.
Muita gente vai lembrar da entrada de Martinelli.
Eu prefiro lembrar que Ancelotti manteve Casemiro, acreditou em Danilo, potencializou Rayan e convenceu os mesmos jogadores a fazerem um jogo completamente diferente em apenas 15 minutos de intervalo.
Trocar jogadores é relativamente simples. Difícil é mudar o comportamento de uma equipe, identificar que o caminho era transformar um 1-4-3-3 em um 1-4-2-4 extremamente agressivo, apostar no peso de área com quatro e até cinco jogadores e, assim, desmontar uma linha de 5 defensiva tão bem organizada. Isso é coisa de treinador que enxerga o jogo um lance antes de todos os outros.




