
“Não colocamos cercas no oceano… mas criamos ambientes para natação protegidos, que oferecem medidas de segurança e ensinam lições importantes desde a mais tenra idade”, disse ela ao Parlamento no início deste ano.
Mas pais como Emma veem isso de forma diferente.
“Deveríamos realmente perder nosso tempo tentando ajudar as crianças a navegar por sistemas difíceis quando as empresas de tecnologia só querem que elas usem esses sistemas o tempo todo?”, ela questiona.
“Ou deveríamos apenas permitir que elas sejam crianças e aprendam a ser sociáveis umas com as outras ao ar livre, e começar essas discussões mais tarde?”
Amy Friedlander, mãe de três filhos, do movimento Wait Mate — que incentiva os pais a adiarem a decisão de dar smartphones aos filhos — concorda.
“Não podemos ignorar todos os aspectos positivos que a tecnologia trouxe para nossas vidas. Há vantagens enormes, mas o que realmente não consideramos é o impacto que está tendo nos cérebros que não estão preparados para isso.”
‘Um instrumento muito contundente’
Mais de 100 acadêmicos australianos criticaram a proibição como “um instrumento muito contundente” — e argumentaram que vai contra a orientação da Organização das Nações Unidas (ONU), que pede aos governos que garantam que os jovens tenham “acesso seguro” aos ambientes digitais.
A proposta também não conseguiu obter o apoio de uma comissão parlamentar bipartidária que tem analisado o impacto das redes sociais nos adolescentes. Em vez disso, a comissão recomendou que as gigantes da tecnologia enfrentem regulamentações mais rigorosas.
Para abordar algumas dessas preocupações, o governo diz que vai acabar introduzindo leis de “dever de cuidado digital”, que vão tornar uma obrigação legal para as empresas de tecnologia priorizar a segurança do usuário.
Joanne Orlando, pesquisadora de comportamento digital, argumenta que embora uma proibição “possa fazer parte de uma estratégia, ela não pode de forma alguma ser a estratégia completa”.
Ela diz que “a maior peça do quebra-cabeça” deveria ser educar as crianças a pensar criticamente sobre o conteúdo que elas veem em seus feeds e como usam as redes sociais.
O governo já gastou 6 milhões de dólares australianos (R$ 23 milhões) desde 2022 para desenvolver “ferramentas de alfabetização digital” gratuitas para tentar fazer exatamente isso. No entanto, pesquisas sugerem que muitos jovens australianos não estão tendo aulas regularmente.
Orlando e outros especialistas alertam que também existem obstáculos significativos para tornar a tecnologia de verificação de idade — necessária para fazer cumprir a proibição — eficaz e segura, dados os “enormes riscos” associados ao potencial armazenamento online dos documentos de identificação de todos os australianos.
O governo disse que pretende resolver esse desafio por meio de testes para verificação de idade, e espera apresentar um relatório em meados do próximo ano. Prometeu ainda que as preocupações com a privacidade vão estar no centro das atenções, mas ofereceu poucos detalhes sobre que tipo de tecnologia vai ser realmente testada.
Em sua orientação, o eSafety Commissioner deu a ideia de usar um serviço independente para tornar anônima a identidade de um usuário antes que ela seja repassada a qualquer site de verificação de idade, para “preservar” sua privacidade.
Mas Orlando permanece cética. “Não consigo pensar em nenhuma tecnologia que exista neste momento que possa fazer isso”, disse ela à BBC.
A Austrália vai conseguir?
A Austrália não é, de forma alguma, o primeiro país a tentar restringir a forma como os jovens acessam determinados sites ou plataformas online.
Em 2011, a Coreia do Sul aprovou uma lei que proibia crianças menores de 16 anos de jogar games na internet entre 22h30 e 6h, mas as regras — que enfrentaram reações adversas — foram posteriormente revogadas, citando a necessidade de “respeitar os direitos dos jovens”.
Mais recentemente, a França introduziu uma legislação que exige que as plataformas de redes sociais bloqueiem o acesso a crianças menores de 15 anos sem o consentimento dos pais. Uma pesquisa indicou que quase metade dos usuários conseguiram burlar a proibição usando uma VPN simples.
Uma lei no Estado de Utah, nos EUA — que era semelhante à da Austrália — se deparou com uma questão diferente: foi obstruída por um juiz federal que a considerou inconstitucional.
Albanese admitiu que a proposta da Austrália pode não ser infalível e, se for aprovada no Parlamento, vai estar sujeita a uma revisão.
“Todos nós sabemos que a tecnologia avança rapidamente, e algumas pessoas vão tentar encontrar formas de burlar estas novas leis, mas isso não é motivo para ignorar a responsabilidade que temos”, disse ele aos legisladores.
Para pais como Emma e Friedlander — que fizeram lobby pelas mudanças —, o mais importante é a mensagem transmitida pela proibição.
“Durante muito tempo, os pais tiveram esta escolha impossível entre ceder e dar aos seus filhos um dispositivo viciante ou vê-los isolados e sentindo-se excluídos socialmente”, observa Friedlander.
“Ficamos presos a uma norma da qual ninguém quer fazer parte.”
James diz que desde que saiu do Snapchat, ele passou mais tempo fora de casa com os amigos.
E ele espera que as novas leis possam permitir que mais crianças como ele “saiam e façam as coisas que amam”, em vez de se sentirem pressionadas a estar conectadas online.



