Diante do escândalo envolvendo o Banco Master, que atinge diferentes esferas de governo e partidos, o PT tem explorado a teia de relações da atual gestão estadual em São Paulo com personagens ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro para tentar desgastar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em ano eleitoral.
O assunto já vinha sendo explorado devido ao fato de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, ser o maior doador da campanha de Tarcísio em 2022, com R$ 2 milhões. Como Zettel é investigado pela Polícia Federal (PF) por ser operador dos negócios do banqueiro, a doação é frequentemente associada por opositores ao próprio dono do Master.
Agora, a oposição a Tarcísio no estado busca deixar claras novas conexões no caso. O líder do PT na Assembleia Legislativa (Alesp), deputado Antonio Donato (PT), publicou um vídeo recentemente em que liga o caso Master às negociações envolvendo as privatizações da Emae, empresa de geração de energia elétrica e de gestão hídrica, e da Sabesp, gigante de abastecimento de água.
O fio condutor da peça são negócios do empresário Nelson Tanure, apontado como sócio oculto do Master, com menções ao presidente da Sabesp, Carlos Piani. Piani foi presidente do conselho da Ambipar e também da Equatorial, que depois comprou a Sabesp.
Negociações bilionárias
O caso remonta à compra da Emae pelo Fundo Phoenix, ligado a Tanure, por um R$ 1 bilhão, em 2024, vencendo a francesa EDF e a Matrix Energia.
Um documento da área técnica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ao qual o Metrópoles teve acesso, aponta a valorização manipulada das ações da Ambipar como uma espécie de lastro para a aquisição da Emae.
“Tratava-se, em verdade, da criação de valor nesse ativo para que pudesse ser empregado de forma mais eficiente em uma operação estratégica subsequente e de grande porte, a aquisição da Emae (beneficiando o Sr. Nelson Tanure)”, diz o documento. O caso é investigado.
O assunto virou munição para o líder do PT na Alesp, que destaca a presença de Piani como presidente do conselho da Ambipar no período (veja vídeo abaixo).
“O fundo Phoenix é composto, basicamente, por ações da empresa Ambipar, e a CVM identificou ações coordenadas entre o banco Master, o investidor Nelson Tanure, o controlador Tércio Borlenghi para inflar artificialmente o valor dessas ações. As ações da Ambipar foram infladas em mais de 700%, numa operação estruturada pelo presidente da Ambipar, Carlos Piani”, disse Donato no vídeo.
Os documentos da CVM ao qual a reportagem teve acesso não citam Piani nominalmente no episódio, apenas os controladores das empresas envolvidas, Borlenghi, da Ambipar, e Tanure, do fundo Phoenix, entre outros.
Já a Emae, nas mãos do fundo ligado a Tanure, investiu cerca de R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, banco ligado ao conglomerado do Banco Master e que foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central (BC). Nelson Tanure, por sua vez, hoje é investigado sob suspeita de ser sócio oculto do Master.
Por não conseguir honrar juros de debêntures emitidos para pagar a Emae, a XP executou garantias do Fundo Phoenix de Tanure e a companhia foi comprada pela Sabesp, que na época já tinha Piani como CEO. O fundo Phoenix tentou barrar a negociação, sem sucesso.
Cronologia das privatizações
- Abril de 2024 – Fundo Phoenix, ligado a Nelson Tanure, suspeito de ser sócio oculto do Master, arremata a Emae em leilão por R$ 1 bilhão, na primeira privatização da gestão Tarcísio.
- Junho a setembro de 2024 – Há grande valorização das ações da Ambipar, que na época tinha como presidente do conselho Carlos Piani. As ações lastreiam o fundo Phoenix, que consegue emitir debêntures para pagar a Emae.
- Julho de 2024 – Equatorial, da qual Piani também era presidente do conselho, vence leilão de privatização da Sabesp.
- Início de 2025 – Emae, sob Tanure, compra R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, ligado ao conglomerado do Master.
- Maio de 2025 – Documento técnico da CVM levanta a hipótese de que a valorização da Ambipar possa ter sido feita de forma artificial para favorecer a compra da Emae por Tanure. O documento não cita Piani, apenas o controlador da Ambipar, Tércio Borlenghi.
- Setembro de 2025 – Sabesp elege Carlos Piani como novo CEO — ele deixa os conselhos da Ambipar e da Equatorial.
- Outubro de 2025 – Como o fundo Phoenix não honrou o pagamento das debêntures, a XP executa dívida e tira o controle da Emae do fundo e vendeu para a Sabesp.
Vidraças
Até agora, a vidraça de Tarcísio de mais fácil entendimento no caso continua sendo a ligação com Fabiano Zettel, maior doador da campanha do governador e também do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na campanha de 2022.
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Zettel repassou R$ 3 milhões para a campanha de Bolsonaro. Já para Tarcísio, a doação foi de R$ 2 milhões. O investigado só doou menos que diretórios dos partidos das coligações das campanhas.
Zettel foi preso na Operação Compliance Zero, que mira fraudes ligadas ao banco Master. Como a investigação está longe do fim, a oposição acredita que novos capítulos que possam surgir servirão para ajudar a cristalizar as conexões de Tarcísio com os personagens do escândalo.
Não há, até o momento, acusação formal de irregularidade contra o governo paulista ou a Sabesp no âmbito do caso Master. No entanto, a teia de relações funcionaria até para blindar o governo federal e o PT contra eventuais acusações neste sentido –por ora, o ponto mais sensível são supostas ligações do caso com a ala baiana da sigla.
O que dizem o governo e a Sabesp
O governo Tarcísio afirmou que “os processos de desestatização da Sabesp e da Emae foram fundamentados em ritos administrativos rigorosos, garantindo total segurança jurídica e proteção ao patrimônio público”.
Além disso, a nota da administração afirma que as operações foram baseadas em estudos técnicos independentes de instituições como o BNDES e a International Finance Corporation. “O modelo de venda via leilão na B3 [Bolsa de Valores] assegurou máxima competitividade sob fiscalização do Tribunal de Contas do Estado”.
Além disso, a gestão afirma que a aquisição da Emae pela Sabesp foi uma decisão estratégica de mercado, “sem qualquer participação ou ingerência da administração pública estadual, e ratificada pelos órgãos de controle competentes e pelo CADE”.
Já a Sabesp afirmou que a escolha de Carlos Piani para presidente, assim como toda a diretoria após a desestatização, “passou por todas as avaliações e análises de conformidade (compliance) e não foi identificado nenhum conflito de interesses ou impedimento legal para a sua atuação”.
“Sobre a aquisição da Emae, é importante ressaltar que não existia qualquer relação anterior da Sabesp ou de sua diretoria com a empresa. A compra das ações foi um movimento estratégico, transparente e que passou pelo crivo e pela aprovação formal dos órgãos máximos de fiscalização do país: o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)”, diz a nota da empresa.
A companhia ainda afirmou repudiar “o uso político e a divulgação de informações falsas”.



