A última vez em que me lembro de ter visto o futuro, ao vivo, foi quando durante a Assembleia Geral das Nações Unidas – 2003 Gilberto Gil, Ministro da Cultura brasileiro, tocava no violão “Toda Menina Baiana” acompanhado na percussão pelo secretário-geral Kofi Ana. Ainda não se sabia na época que aquela seria uma espécie de “visita da saúde” (aquele instante de melhora ilusória dos moribundos antes da morte). Ali, o futuro já respirava por aparelhos.
É bem verdade que, naquela época, ainda se carregava a bandeira “Um outro mundo é possível”. Lideranças como Tony Blair, Mandela, Lula ou Al Gore ainda circulavam mundo afora pregando uma nova política após 50 anos de Guerra Fria. O Fórum Social Mundial estava na moda, frequentado por Chomsky, Boaventura e outros pregadores da esperança. A sociedade civil estivera bombando ao longo da década de 1990. O mundo ainda veria um casal preto na Casa Branca e ainda surgiria um novo agrupamento – o BRICS – insinuando uma alternativa à geopolítica global.
Porém, era difícil perceber que, naquela altura, o futuro já era coisa do passado. A ideia de uma globalização democrática, igualitária e sustentável começara a perder utilidade desde a queda do muro de Berlim. Contudo, essa visão de futuro ideal caiu de vez junto com as torres gêmeas numa despretensiosa manhã de setembro. Bin Laden atirou no que viu e acertou no que não viu. Demoliu toda a utopia ocidental de um capitalismo palatável. No mesmo dia, o imperador ianque decretou “Quem não estiver com a América está contra ela”. Dali em diante, não haveria mais capitalismo socialista nem socialismo capitalista. Apenas “eles ou nós”.
Eu acabara de desembarcar em Bolonha naquele dia 11 para uma mega feira de produtos naturais, com seminários sobre orgânicos, meio ambiente, desigualdade social, economias regionais, consumo consciente… Assim que vi na TV, ainda no aeroporto, Manhattan e o Pentágono envoltos em poeira, percebi que aquela nuvem cobriria o ideário progressista no mundo todo. Dito e feito, os recursos – e as vontades – para financiamento dos movimentos sociais e dos organismos multilaterais escassearam de uma hora para outra, enquanto representantes do pensamento mais retrógrado brotavam dos porões. Começava nossa caminhada para o passado.
Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles
A partir dali o debate sobre a pobreza no Sul Global sumiu da pauta gradativamente. As mudanças climáticas e a descarbonização ainda conseguiram resistir na agenda global, com dificuldade, por mais alguns anos. No entanto, mais recentemente, nem o apocalipse iminente resistiu à invasão da Ucrânia e à guerra no Oriente Médio. Como se diz no Nordeste, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. O multilateralismo esfarelou como paçoca. A tratativa sobre o caos climático e a perspectiva de um ‘ponto de não retorno’ perdeu lugar diante da ameaça de falta de combustíveis, escassez de alimentos, elevação de preços, paralização econômica, colapso urbano e outros medos típicos de tempos de guerra. Zeca Baleiro tem razão, “pior que o fim do mundo é o fim do mês”. A descarbonização foi pra gaveta.
Quem sabe, o super calor que assola a Europa seja, finalmente, a tragédia suficiente para reacender a luz laranja nos gabinetes refrigerados. Aquele futuro representado por Gil e Kofi Ana ficou distante, com extremos climáticos por todo lado e uma desigualdade social incansável. E como será nos próximos anos? As lideranças irresponsáveis ainda estarão esquartejando a galinha dos ovos de ouro? Tomara que ainda dê tempo de recuperar a consciência do significado de ponto de não retorno, antes que ele chegue.
Felipe Sampaio: sócio da Terra Consultoria e Inovação; cofundador do Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; ex-subsecretário de Segurança Urbana do Recife; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça.




