O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Adulto II Vila Prudente, localizado na zona leste de São Paulo, enfrenta defasagem de profissionais e funciona sem psicólogos há mais de dois anos. A unidade está com a escala de assistentes sociais reduzida, sem um terapeuta ocupacional e com apenas um psiquiatra disponível para atender cerca de 250 pacientes.
Enfermeiras, assistentes sociais e profissionais técnicos se desdobram para cadastrar, acolher, ouvir, direcionar, integrar e propor atividades para pacientes que chegam à unidade. A falta de profissionais sobrecarrega os servidores remanescentes no local.
Em entrevista ao Metrópoles, pessoas ligadas ao Conselho Gestor do CAPS afirmaram que os profissionais temem pelos pacientes e pelo futuro do centro psicossocial. A unidade está sem psicólogos desde 2024 e dispõe apenas de um psiquiatra, que trabalha em dois dias da semana.
“Nós que sobramos aqui estamos fazendo o possível e o impossível para que essas pessoas tenham um lugar de escuta e de acolhimento”, argumentou uma funcionária.
Segundo funcionários, outra psiquiatra que atua no CAPS costumava atender de segunda a sexta-feira, porém está de licença médica — e o afastamento deve vir seguido da aposentadoria.
O Metrópoles apurou que o Conselho Gestor já fez pelo menos três solicitações à Secretaria Municipal da Saúde (SMS) pela ampliação do número de profissionais. O grupo denunciou as condições precárias de trabalho do CAPS Adulto II Vila Prudente e afirmou que as más condições “prejudicam diretamente a assistência prestada aos pacientes”.
Veja algumas das reclamações:
- Falta de enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos e farmacêutico.
- Falta de medicamentos de uso contínuo e insumos para fracionamento e acondicionamento dos mesmos.
- Falta de materiais para realização de atividades terapêuticas que compõem o tratamento.
Os funcionários reivindicam a convocação dos aprovados em um concurso vigente de profissionais da saúde. Procurada pelo Metrópoles, a pasta da Saúde informou que recebeu as solicitações, mas “a medida não foi aprovada pelo Conselho Gestor, instância participativa responsável por deliberar sobre questões relacionadas à organização e ao funcionamento do equipamento”.
Em resposta, os funcionários e usuários do CAPS afirmaram que a proposta apresentada pela secretaria “foi um projeto de trabalho para a terceirização”, o que foi repudiado pelo conjunto.
Pacientes relatam acolhimento e temem futuro do CAPS
Rafael (nome fictício), paciente do CAPS desde 2024, contou ao Metrópoles que se sente acolhido e abraçado no local. Ele afirmou que o serviço é “um apoio, um braço para todo mundo” e que seria afetado caso a situação piorasse na unidade.
“Quando eu vim aqui, eu estava quase dormindo na rua, porque eu não parava de ver coisas na minha casa. Mas estou melhorando, é de pouquinho em pouquinho”, informou.
Outro usuário, identificado pelo nome fictício Jorge, afirmou que frequenta o serviço há 17 anos e encontra no local amizades e acesso à alimentação. O serviço de saúde mental conta com pelo menos 30 pacientes diários e outros 200 usuários que procuram consultas e atendimentos eventuais.
Os pacientes são principalmente pessoas com condições mentais graves, caracterizadas pela perda de contato com a realidade — que precisam de acompanhamento. Ao todo, moradores de nove bairros da região procuram atendimento de saúde mental no local.
Ato criticou terceirização e exigiu nomeação de concursados
Na manhã da última quinta-feira (26/3), ativistas, parlamentares, funcionários e usuários do CAPS se reuniram em um abraço simbólico à unidade e protestaram contra as terceirizações da gestão Ricardo Nunes (MDB). O ato, que contou com apoio do Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep), também pediu a nomeação de servidores públicos aprovados em concurso vigente.
Com diversos cartazes, os participantes do protesto reivindicaram a qualidade do serviço público de saúde e repudiaram a política de terceirização. Durante o ato, Maria Mota, coordenadora da região Sudeste do Sindsep, afirmou que o protesto foi um “grito de indignação” e afirmou que “há muitos profissionais querendo trabalhar e muita gente precisando de atendimento”.
“Como um Caps, um serviço para atender as pessoas em sofrimento mental, não tem psicólogo? A equipe hoje está extremamente reduzida para fazer o atendimento à população. Queremos que nosso grito de indignação chegue até o governo, porque há recurso financeiro, tem concurso público aprovado, há muitos profissionais querendo trabalhar e muita gente precisando de atendimento. Então, por que o governo não chama [os concursados]? A terceirização é ausência de transparência”, declarou a coordenadora.



