Sob protestos, professor acusado de assédio volta à USP após um ano


O professor José Maurício Rosolen, acusado de assediar sexualmente algumas de suas alunas, voltou à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP), um ano após ter sido afastado do cargo.

Agora, estudantes e ex-alunos da instituição se dizem preocupados com o retorno do docente, afirmam que a faculdade não têm sido transparente com as investigações do caso e discutem fazer uma manifestação contra a volta de Rosolen.


Relembre o caso

  • Em 2025, a FFCLRP abriu um processo administrativo disciplinar (PAD) para apurar as denúncias envolvendo o professor, que acabou afastado das salas de aula e laboratórios.
  • O afastamento era de 180 dias, prorrogáveis pelo mesmo período de tempo.
  • Na época, estudantes atuais e egressos da instituição afirmaram terem sido vítimas de assédio sexual.
  • Alguns alunos também levantaram suspeitas sobre uma má conduta do docente no dia-a-dia dos laboratórios de pesquisa (entenda melhor abaixo).
  • Após as denúncias virem à tona, a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Ribeirão Preto também abriu um inquérito para apurar o caso.

Nesta segunda-feira (9/3), alunos do curso de química, onde o professor atua, fizeram uma assembleia para debater uma possível paralisação em protesto à volta do professor aos corredores da faculdade.

“Casos de assédio não podem ser normalizados dentro da universidade”, dizia o texto publicado pelo Centro Estudantil da Química (CENEQui), convocando os alunos para o evento.

Depois da assembleia, um formulário on-line foi criado para que os estudantes digam se querem ou não fazer a paralisação. Na próxima quinta-feira (12/3), os alunos devem fazer um novo encontro para debater o tema.

Um cartaz falando sobre o caso tem circulado em grupos de WhatsApp da instituição. “Um ano de afastamento. Isso é punição suficiente? A comunidade universitária está segura?”, diz o material.

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O assédio sexual é caracterizado por avanços ou exigência de favores sexuais não requeridos e não aceitáveis, que inclui também contatos físicos ou verbais com conotações sexuais. É visto como uma forma de violência contra a mulher, ou homens, e é um crime previsto no Código Penal brasileiro (CP)
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O assédio sexual é caracterizado por avanços ou exigência de favores sexuais não requeridos e não aceitáveis, que inclui também contatos físicos ou verbais com conotações sexuais. É visto como uma forma de violência contra a mulher, ou homens, e é um crime previsto no Código Penal brasileiro (CP)

Malte Mueller / Getty Images

De acordo com o artigo 216 – A, do CP, caracteriza-se como assédio sexual “constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função” (incluído pela Lei 10.224)
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De acordo com o artigo 216 – A, do CP, caracteriza-se como assédio sexual “constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função” (incluído pela Lei 10.224)

Prot Tachapanit / EyeEm/ Getty Images

A pena prevista é de um a dois anos de detenção, sendo aumentada em até um terço se a vítima for menor de 18 anos
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A pena prevista é de um a dois anos de detenção, sendo aumentada em até um terço se a vítima for menor de 18 anos

Tinnakorn Jorruang / EyeEm/ Getty Images

O assédio sexual também é considerado discriminatório, uma vez que ocorre em virtude do sexo da vítima. De acordo com um estudo realizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), “o crime está ligado com o poder. Na maioria das vezes acontece em sociedades em que a mulher, por exemplo, é tratada como cidadã de segunda classe ou objeto sexual”
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O assédio sexual também é considerado discriminatório, uma vez que ocorre em virtude do sexo da vítima. De acordo com um estudo realizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), “o crime está ligado com o poder. Na maioria das vezes acontece em sociedades em que a mulher, por exemplo, é tratada como cidadã de segunda classe ou objeto sexual”

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“Exemplo clássico é quando favores sexuais são solicitados em troca de trabalho, promoção ou aumento salarial. Outro exemplo é o assédio sexual de rua, que pode ir desde sons e assobios a palavras ofensivas ou até abuso e violação sexual”, indica o estudo
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“Exemplo clássico é quando favores sexuais são solicitados em troca de trabalho, promoção ou aumento salarial. Outro exemplo é o assédio sexual de rua, que pode ir desde sons e assobios a palavras ofensivas ou até abuso e violação sexual”, indica o estudo

LaylaBird/ Getty Images

Caracteriza-se como assédio sexual: tocar, beijar, abraçar ou encostar em alguém com segundas intenções e sem permissão; contar piadas obscenas; compartilhar imagens com conteúdo pornográfico e enviar mensagens, cartas ou e-mails de natureza sexual
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Caracteriza-se como assédio sexual: tocar, beijar, abraçar ou encostar em alguém com segundas intenções e sem permissão; contar piadas obscenas; compartilhar imagens com conteúdo pornográfico e enviar mensagens, cartas ou e-mails de natureza sexual

Peter Dazeley/ Getty Images

Também é considerado assédio sexual avaliar pessoas por seus atributos físicos, proferir comentários com conotação sexual sobre a roupa de terminada pessoa, assobiar ou fazer sons inapropriados, oferecer cargos, dinheiro ou aumento em troca de relação sexual, perseguir alguém, apelidar de forma inapropriada, entre outros
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Também é considerado assédio sexual avaliar pessoas por seus atributos físicos, proferir comentários com conotação sexual sobre a roupa de terminada pessoa, assobiar ou fazer sons inapropriados, oferecer cargos, dinheiro ou aumento em troca de relação sexual, perseguir alguém, apelidar de forma inapropriada, entre outros

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Apesar de o que possa parecer, o assédio sexual não acontece apenas com mulheres. Homens também podem ser vítimas do crime. Na verdade, não existe um padrão de gênero. Já o assediador pode ser qualquer pessoa, desde um chefe, um familiar a um desconhecido ou alguém entrevistando para um trabalho, por exemplo
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Apesar de o que possa parecer, o assédio sexual não acontece apenas com mulheres. Homens também podem ser vítimas do crime. Na verdade, não existe um padrão de gênero. Já o assediador pode ser qualquer pessoa, desde um chefe, um familiar a um desconhecido ou alguém entrevistando para um trabalho, por exemplo

Rick Gomez/ Getty Images

Para combater o crime, o primeiro passo é quebrar o silêncio. Além disso, segundo um guia elaborado pelo Senado Federal, é importante registrar detalhadamente todas as invertidas criminosas, bem como a data, hora, local, nomes do perpetrador e das testemunhas e descrições dos eventos para ajudar na coleta de evidências
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Para combater o crime, o primeiro passo é quebrar o silêncio. Além disso, segundo um guia elaborado pelo Senado Federal, é importante registrar detalhadamente todas as invertidas criminosas, bem como a data, hora, local, nomes do perpetrador e das testemunhas e descrições dos eventos para ajudar na coleta de evidências

Carol Yepes/ Getty Images

Em seguida, reporte os casos às autoridades competentes, ao órgão ou empresa onde trabalha ou onde a situação ocorreu. Ainda segundo o guia, a denúncia é a única forma de fazer com que o agressor seja punido
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Em seguida, reporte os casos às autoridades competentes, ao órgão ou empresa onde trabalha ou onde a situação ocorreu. Ainda segundo o guia, a denúncia é a única forma de fazer com que o agressor seja punido

Pyrosky/ Getty Images

Mãos no corpo

Ex-alunas que foram ouvidas pelo Metrópoles dizem que a volta de Rosolen deixa uma sensação de impunidade. “É uma sensação de que não vale a pena denunciar”, diz uma delas, que afirma ter sido assediada pelo professor entre os anos de 2022 e 2023.

A mulher, que pediu para não ter a identidade revelada, contou que o professor tinha uma “má-fama” entre as alunas. “A gente tomava cuidado no laboratório para não deixar nenhuma mulher sozinha com ele”, lembra.

Ela afirma ter presenciado pelo menos três situações em que o professor tocou nos corpos de alunas ao passar ao lado delas em uma espécie de corredor do laboratório, entre uma bancada e a parede.

“A pia do laboratório fica no meio, então as pessoas passam atrás de você. Tem uns 80 centímetros, todos nós conseguíamos passar ali sem tocar uns nos outros. A não ser ele. Ele que tinha que passar a mão na cintura de alguém.”

Quando questionado, o professor dizia que, segundo ela, que não tinha nada de demais na situação. Uma das estudantes teria sido chamada de “sensível” por Rosolen, por reclamar dos toques.

A química Luiza Knittel, de 38 anos, também diz ter sido vítima do professor. Ao Metrópoles, ela contou que passou a conviver com Rosolen em 2024, quando foi selecionada para participar do grupo de pesquisa dele. As atitudes do professor, no entanto, teriam tornado a rotina de trabalho cada vez mais desconfortável.

No início, Luiza diz que Rosolen fazia comentários inapropriados, como sugestões de que ela o levasse para jantar ao receber o pagamento pela bolsa de pesquisa, e de que os dois fossem juntos assistir a um musical no Dia dos Namorados. Ela sempre buscava desconversar ou inventar um compromisso.

Algumas vezes, o professor passou a sugerir que ela fosse com roupas de ginástica para o laboratório, para que os dois fossem se exercitar juntos na academia da universidade depois. “Eu perguntava para os meus colegas [homens]: ele também chama vocês para irem com roupa de ginástica? Eles falavam que não”.

As situações ficaram mais difíceis, no entanto, quando o assédio passou a ser físico. Luiza diz que quando estava no computador, Rosolen se aproximava, sentava ao seu lado e começava a tocar sua perna.

“Ele ia comentar alguma coisa e cutucava a minha coxa. Na terceira vez que ele cutucava, ele deixava a mão”.

Um dia, ela disse que estava com um molho de chaves para tentar abrir um armário. Rosolen teria, então, se aproximado, segurado sua mão e começado a acariciá-la enquanto dizia para que ela não misturasse as chaves.

“Ele pegou na minha mão, começou a fazer carinho e não soltou. Nesse dia, eu fiz um movimento brusco, olhei muito feio para ele, virei as costas e saí andando.”

Segundo Luiza, depois da reação dela nesse dia, o professor teria passado a assediá-la moralmente. Ela cita, por exemplo, que o docente teria se negado a comprar um equipamento novo depois que aquele que ela utilizava quebrou. A falta do equipamento teria prejudicado sua pesquisa.

Para ela, a presença do professor de volta à USP representa um risco para os denunciantes e também para outras alunas.

Má-conduta

Além dos relatos de assédio que pairam sob o professor, denúncias de que ele teria tido uma má conduta em outros âmbitos profissionais também foram citadas ao Metrópoles. Um aluno que atuou no laboratório com Rosolen disse que ele pedia aos pesquisadores que fizessem funções diferentes daquelas para as quais eles eram designados.

“Eu tive que limpar o laboratório. Matar rato, matar barata”, conta o homem, que pediu para não ser identificado. Segundo o relato, o professor pedia que os pesquisadores também auxiliassem na prestação de contas do laboratório.

O Metrópoles apurou que a USP também recebeu uma denúncia de que o professor teria usado material de outro aluno em um artigo seu sem dar o devido crédito.

Outro lado

A reportagem procurou a FFCLRP para entender a atual situação do processo administrativo contra o professor e por que ele retornou à faculdade, mas a instituição não respondeu o pedido de nota até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

O Metrópoles também enviou um e-mail para Rosolen, solicitando entrevista ou uma nota de posicionamento. O professor não respondeu. O espaço também segue aberto.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que o inquérito aberto pela DDM de Ribeirão para investigar o docente foi concluído e relatado à Justiça em setembro de 2025. “Outros questionamentos devem ser direcionados ao Poder Judiciário”, termina a nota.



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