Algumas pessoas passam pela vida deixando marcas profundas sem jamais buscar os holofotes. Foi assim com Alexandrina Bandeira Mendes, nossa querida Tia Xanda, que nos deixou neste sábado, aos 107 anos.
Para muitos, ela era a mãe da ex-deputada estadual Selma Bandeira e de uma família conhecida em Alagoas. Para mim, era também parte da minha própria história. Tia de minha mãe, dona Norma, ela foi minha tia-avó — dessas que a gente aprende a chamar simplesmente de tia, com o carinho e o respeito que o tempo constrói.
Quando menino, ainda vivendo em Delmiro Gouveia, onde nasci, precisei vir a Maceió para tratamento médico. Foi na casa de Tia Xanda que fiquei hospedado por um curto período. A lembrança é distante no tempo, mas permanece viva. Recordo do cuidado, da atenção e do jeito afetuoso com que fui recebido.
Naquele tempo, ela morava na antiga Rua da Aurora, bem ao lado do Mirante Santa Terezinha. Para uma criança do Sertão, aquela parte da cidade parecia quase um mundo novo. Lembro de subir e descer a escadaria que leva até a Praça dos Martírios como se fosse uma grande aventura — talvez uma das mais marcantes da minha infância em Maceió.
E ela estava sempre ali, com o mesmo jeito acolhedor, recebendo todos com um sorriso largo de tia.
Anos depois, já estudante do segundo grau em Maceió, em tempos em que a vida era difícil para mim — como era para tantos jovens que tentavam abrir caminho — voltei muitas vezes à casa de Tia Xanda. Às vezes para um almoço, às vezes para um jantar. Nunca fui apenas um visitante. Sempre fui recebido como alguém da família.
Era uma casa onde a porta parecia sempre aberta e onde a simplicidade vinha acompanhada de generosidade.
Hoje, ao saber de sua partida, me vem à memória exatamente isso: a imagem de uma mulher forte, discreta, daquelas que sustentam a família com afeto, presença e exemplo. Não buscava reconhecimento público, mas construiu algo muito maior — ajudou a formar gerações.
Tia Xanda deixa filhos, netos, bisnetos e uma história que se espalha por muitas famílias e por muitas lembranças.
De minha parte, fica a gratidão.
Gratidão pelo acolhimento quando eu era apenas um menino do Sertão que chegava à capital para enfrentar dificuldades e descobertas. Gratidão pelos gestos simples, pelas refeições compartilhadas, pela porta sempre aberta e pelo sorriso sempre pronto.
Descanse em paz, Tia Xanda.
Seu carinho ajudou a construir memórias que o tempo não apaga.
Nota a imprensa
Faleceu neste sábado, 14 de março, em Maceió, Alexandrina Bandeira Mendes, conhecida por familiares e amigos como Dona Xanda. Nascida em 7 de outubro de 1918, em Delmiro Gouveia, no Sertão de Alagoas, ela morreu em casa, cercada pela família, após uma longa vida dedicada aos filhos, netos e bisnetos.
O velório está sendo realizado na capela 2 do Cemitério Parque das Flores, na capital alagoana. O sepultamento ocorrerá neste domingo, 15 de março, às 9h, no mesmo local.


