Grupos postam nos comentários do TikTok ‘memes’ de exaltação a Hitler
Perfis no TikTok publicam conteúdos que exaltam Hitler e o nazismo, tanto de forma explícita quanto por meio de códigos usados para tentar driblar a moderação da plataforma e a legislação que pune a prática — no Brasil, a apologia ao regime é crime (saiba mais abaixo). O g1 chegou a essas publicações a partir de uma denúncia enviada por um leitor,…
Perfis no TikTok publicam conteúdos que exaltam Hitler e o nazismo, tanto de forma explícita quanto por meio de códigos usados para tentar driblar a moderação da plataforma e a legislação que pune a prática — no Brasil, a apologia ao regime é crime (saiba mais abaixo).
O g1 chegou a essas publicações a partir de uma denúncia enviada por um leitor, que não será identificado por segurança.
“Encontrei esses perfis a partir de vídeos de denúncia publicados por outros usuários do próprio TikTok. Depois de acessar um deles, a plataforma passou a me recomendar cada vez mais conteúdos semelhantes”, relatou.
Desde o fim de janeiro, ao longo de quatro semanas, o g1 identificou ao menos 62 contas que publicaram conteúdos de exaltação ao nazismo.
Em menos de três dias de monitoramento, vídeos, fotos e memes com essas referências passaram a ser exibidos com frequência na “for you” (“para você”, a página inicial do TikTok).
O g1 procurou o TikTok e compartilhou algumas das postagens encontradas. A rede social afirmou que esses conteúdos foram removidos por violarem as Diretrizes da Comunidade.
O TikTok disse que não permite apoiar ou disseminar ideologias de ódio, “o que inclui alegações de supremacia sobre um grupo protegido, antissemitismo ou outras formas de preconceito”.
E que o uso de símbolos e imagens associados a movimentos de ódio também vai contra as diretrizes da plataforma (veja a resposta na íntegra ao fim da reportagem).
“Nós treinamos regularmente nossos profissionais de segurança para ajudá-los a aprimorar a detecção de comportamento de ódio, símbolos, termos e estereótipos ofensivos, e para ajudá-los a identificar e proteger o contradiscurso.”
Uso de códigos para ‘disfarçar’
A maioria das postagens encontradas pelo g1 usa hashtags, emojis e siglas para fazer referência à ideologia, embora existam também conteúdos explícitos.
Os códigos usados por neonazistas e supremacistas não serão citados nesta reportagem para evitar sua propagação e promoção.
Parte do material foi encaminhada para avaliação das pesquisadoras Liriam Sponholz e Yasmin Curzi, especializadas em discurso de ódio.
Segundo elas, muitos dos conteúdos, ainda que recorram a mecanismos de disfarce, podem configurar apologia ao nazismo.
Eles são o que os pesquisadores chamam de “dog whistle” (“apito de cachorro”). É um sinal com duplo sentido, que passa despercebido para a maioria, mas é reconhecido por quem tem familiaridade com a referência. E ainda permite manter certa negação plausível, explica Liriam Sponholz.
Ela faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais (INCT-DSI), que pesquisa, entre outros temas, a circulação de informações mediadas por plataformas, algoritmos e dados.
“(As postagens) evitam usar símbolos explicitamente citados nas legislações, como a suástica, e também fazem questão de não mencionar diretamente certos termos. Por exemplo, deixam de citar de forma explícita palavras como “Hitler”, diz Liriam, que também estuda discurso de ódio.
“A apologia está presente nesses posts, mas, do ponto de vista jurídico, nem sempre é interpretada como tal justamente por não ser explícita”, completa.
Liriam observa que, nas redes, comprovar a intenção é muito complicado. Ainda assim, ela alerta que não se pode usar essa dificuldade como justificativa para permitir que a apologia ao nazismo continue circulando.
Perfis de diversos países
As postagens encontradas pelo g1 foram feitas em vários idiomas, incluindo português, mas não revelam onde estão seus criadores. Também não é possível confirmar oficialmente a localização das contas, já que, ao contrário do X e do Instagram, o TikTok não informa o país de origem do perfil.
Ainda assim, a plataforma tikip.us, que reúne dados e estima a localização de contas do TikTok, aponta que 15 das 62 analisadas estariam no Brasil. As demais foram atribuídas a países como Estados Unidos, Arábia Saudita, Alemanha, Belarus, Reino Unido e Polônia.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/c/t/AAz4FHQgSqvGMJ8o0TVQ/captura-de-tela-2026-02-09-111420-1-.png)
Publicação concentra comentários de apologia ao nazismo. — Foto: Reprodução/TikTokEm um dos posts identificados pelo g1, um carrossel de fotos exibe a frase em inglês “because I remember you” (“porque eu me lembro de você”), sobreposta a uma imagem que aparenta retratar Adolf Hitler (veja na imagem acima).
Nos comentários, também em inglês, aparecem mensagens como “meu herói”, “meu líder”, “sinto muito a sua falta” e “ele estava fazendo a coisa certa”.
Em outro caso, em um perfil com conteúdo em português, o g1 identificou uma espécie de “trend” em que usuários faziam referência à morte de Hitler, em 30 de abril de 1945, atribuindo ao episódio um sentido positivo. Publicações com teor semelhante também foram encontradas em inglês e em espanhol (veja na imagem abaixo).
Um dos posts dessa conta, publicado em junho de 2025, soma 371 mil visualizações e 46 mil curtidas.
Entre os mais de 660 comentários, houve críticas à publicação. “Amigo, mas se o H [Hitler] estivesse vivo, vc não estaria vivo kkkk se toca, vc é latino-americano”, escreveu um usuário.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/6/M/4ufn62Qu2EXujzeI7PbQ/fotojet-2026-02-09t112228.086-1-.jpg)
Trend no TikTok faz referência à morte de Adolf Hitler — Foto: Reprodução/TikTokOutro saiu em defesa do conteúdo: “Poxaa, foi só uma brincadeira, humor apenas, fica em paz pq ele com certeza sabe”. A resposta veio em seguida: “Humor? HUMOR? Claro, com um cara que matou pessoas pela fé, pela cor, pelo pensamento diferente”.
“Brincar com a morte de milhões? Não é brincadeira”, comentou mais um usuário.
No Brasil, exaltar o ideário nazista, usar símbolos, distribuir emblemas ou fazer propaganda da doutrina é crime, com pena de reclusão, conforme a Lei Federal 7.716/1989 (saiba mais ao final da reportagem).
Liriam diz que o 30 de abril de 1945 é usado com a intenção é enviar uma mensagem que só quem compartilha dessa visão de mundo entende.
Apesar da referência indireta ao suicídio de Hitler e do uso desse tipo de codificação por extremistas, juridicamente, pela lei brasileira, a expressão não pode ser classificada com clareza como antissemita, afirma Yasmin Curzi, professora de direito da FGV e pesquisadora do Karsh Institute of Democracy da Universidade da Virginia, nos EUA.
“Eles usam uma estratégia para não entrar na área juridicamente relevante e ficar abaixo do radar da Justiça. As pessoas nesses vídeos evitam algo explícito justamente para não fazer apologia de forma aberta“, completa Liriam.
Conteúdos explícitos também são encontrados
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/W/G/h8mJyZSLuCBpdnpZtYQQ/fotojet-2026-02-13t100517.333-1-.jpg)
Vídeo postado no TikTok mostra homem dançando com suástica girando ao fundo — Foto: Reprodução/TikTokEmbora boa parte dos perfis recorra a códigos para tentar se resguardar, o g1 encontrou com facilidade publicações explícitas.
Ao pesquisar por termos e símbolos associados a movimentos neonazistas, a busca do TikTok não impediu que esse tipo de postagem fosse exibido.
Foi assim que o g1 localizou, por exemplo, um vídeo em que um homem aparece dançando com o símbolo da suástica girando ao fundo (veja acima).
Esse mesmo perfil ainda traz, na bio, a frase “White Power” (ou “poder branco”, em português), expressão comumente associada a grupos supremacistas que defendem a ideia de superioridade de pessoas brancas sobre outras etnias.
Outro vídeo encontrado pelo g1 exibe a águia imperial nazista com a cruz de ferro e a frase em inglês “um dia as pessoas vão perceber que ele estava certo” (veja na imagem abaixo). Segundo Yasmin Curzi, o mesmo perfil publicou diversos outros conteúdos explicitamente nazistas.
O vídeo em questão acumula pouco mais de 51 mil visualizações, além de mais de 6,7 mil curtidas e 155 comentários.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/X/k/w5utN7TJyI6y2RIIUcgA/fotojet-2026-02-13t104727.973-1-.jpg)
Vídeo postado no TikTok traz a águia imperial nazista com a cruz de ferro. — Foto: Reprodução/TikTokEm outro momento, ao pesquisar na ferramenta de busca da rede social por um símbolo associado a uma organização paramilitar ligada ao Partido Nazista, o TikTok exibiu o aviso de que “a frase pode estar associada a comportamento ou conteúdo que viola nossas diretrizes”.
Ainda assim, o mesmo símbolo aparece na bio de um perfil identificado pela reportagem, o que indica que os filtros da plataforma não conseguiram impedir totalmente o uso desse código.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/A/L/p8wYpcQUWW8GJ7Q8KHeQ/fotojet-2026-02-13t142520.348-1-.jpg)
No Tiktok, um mesmo termo associado ao nazismo é bloqueado nos resultados de busca, mas é mantido na descrição de um perfil — Foto: Reprodução/TikTokO TikTok também permite que usuários comentem em publicações com imagens estáticas ou animadas. Na maioria dos vídeos monitorados, aparecem imagens em tom de meme com Adolf Hitler acompanhadas da expressão “Absolute cinema” ou “Cinema absoluto”, em português.
A frase é bastante popular na internet e costuma ser usada para se referir, de forma elogiosa ou irônica, a cenas de filmes, séries ou novelas consideradas icônicas, de alta qualidade ou com uma pegada cinematográfica.
Nos dois exemplos acima, as imagens foram publicadas nos comentários de um vídeo antigo que mostra a Alemanha durante o regime nazista. Na imagem à direita, Hitler aparece ainda criança.
Além disso, o g1 encontrou inúmeros vídeos com o símbolo de uma caveira que é associado à unidade que administrava os campos de concentração nazistas.
“A divulgação (desse símbolo) não é apenas apologia ao nazismo, mas também discurso de ódio antissemita”, diz Liriam.
Nos três exemplos abaixo onde o símbolo aparece, os vídeos foram exibidos na aba “Para você” do TikTok enquanto o feed era rolado. As publicações surgiram em menos de cinco minutos de navegação.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/B/H/DNwaxZTBuMyuPyuSKl6w/tiktok.jpg)
Postagens com símbolo associado ao nazismo — Foto: Reprodução/TikTokO que diz a lei brasileira
A apologia ao nazismo, com o uso de símbolos nazistas, a distribuição de emblemas ou a propaganda do regime, é crime previsto em lei no Brasil, com pena de reclusão.
A apologia ao nazismo se enquadra na Lei 7.716/1989, segundo a qual é crime:
- praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa – ou reclusão de dois a cinco anos e multa se o crime for cometido por meio de publicações ou em meios de comunicação social.
- fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.
A lei é respaldada pela própria Constituição, que classifica o racismo como crime inafiançável e imprescritível. Isso significa que pode ser julgado e punido a qualquer momento, independentemente do tempo decorrido desde a conduta.
Inicialmente, a legislação não mencionava o nazismo de forma explícita, pois era voltada principalmente ao combate ao racismo sofrido pela população negra. As referências diretas ao nazismo foram incluídas em 1994 e 1997, por meio de projetos de lei.
“A apologia ao nazismo é racismo, configura crime e viola a Convenção Interamericana contra o Racismo, ratificada pelo Brasil em 2023. Há ampla jurisprudência sobre o tema. Esses posts deveriam ser removidos pelo TikTok e não poderiam ser recomendados ou exibidos sem login, o que amplia sua disseminação”, conclui Yasmin.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/W/e/OEigrxSHevAgY6IKcLEA/captura-de-tela-2026-02-09-105300-2-.png)
Perfil no TikTok dedicado a conteúdo nazista. — Foto: Reprodução/TikTok“Os conteúdos compartilhados foram removidos da plataforma por violarem as nossas Diretrizes da Comunidade. Sobre nossas diretrizes de comportamento e discurso de ódio: o TikTok não permite discurso ou comportamento de ódio, bem como a promoção de ideologias de ódio.
Nossas Diretrizes da Comunidade proíbem explicitamente:
- Incentivar a violência, segregação, discriminação ou outros danos contra pessoas com base em atributos protegidos, como raça ou religião.
- Apoiar ou disseminar ideologias de ódio, o que inclui alegações de supremacia sobre um grupo protegido, antissemitismo ou outras formas de preconceito.
- O uso de símbolos e imagens associados a movimentos de ódio.
- Negar ou minimizar atrocidades históricas bem documentadas contra grupos protegidos, como o Holocausto.
Aplicação de moderação baseada em nossas diretrizes acerca do tema:
- Nós treinamos regularmente nossos profissionais de segurança para ajudá-los a aprimorar a detecção de comportamento de ódio, símbolos, termos e estereótipos ofensivos, e para ajudá-los a identificar e proteger o contradiscurso.
- Consultamos acadêmicos e especialistas de todo o mundo para nos mantermos atualizados sobre as tendências em evolução e para nos ajudar a avaliar e melhorar regularmente nossas políticas e processos de aplicação.
- Bloqueamos buscas por termos relacionados a ódio ou ideologias de ódio e redirecionamos a busca para as nossas Diretrizes da Comunidade para educar nossa comunidade sobre nossas políticas contra a expressão de ódio.
- Em nosso Centro de Transparência, publicamos, trimestralmente, um relatório de moderação com os números do período. O mais recente, do terceiro trimestre de 2025, mostra que 98,8% dos conteúdos que violaram nossas políticas de Segurança e Civilidade – que incluem nossas regras sobre comportamento e discurso de ódio – foram removidos proativamente, sendo que 87% foram removidos antes de receberem qualquer visualização.”
Fonte:Source link




