
“Além disso, sabemos que essas empresas de tecnologia coletam dados do usuário, o que aprimora as ferramentas para ampliar cada vez mais o estímulo e prender a atenção”, complementa ele.
Feito o diagnóstico, é possível lançar mão de uma série de medidas para lidar com a dependência.
“A abordagem depende muito das características do paciente”, diz Spanemberg.
“A maioria deles possui algum outro transtorno psiquiátrico associado, como uma depressão, que também precisa de tratamento”, acrescenta ele.
“O jogo muitas vezes é uma estratégia, um subterfúgio para lidar com um sentimento negativo que está relacionado com outro distúrbio”, reforça Spanemberg.
Ao tratar a doença de base (como depressão ou ansiedade, por exemplo), a tendência é aliviar esses sentimentos negativos — e, por consequência, diminuir aos poucos a necessidade de fazer apostas.
Em linhas gerais, o transtorno do jogo pode ser trabalhado na terapia cognitivo-comportamental, um tipo de psicoterapia em que o paciente e o profissional de saúde avaliam e discutem comportamentos e pensamentos, para que eles possam ser modificados com o passar do tempo.
“Também há a entrevista motivacional, uma abordagem usada para entender o estágio de consciência que o indivíduo está em relação à dependência. Ele pode se encontrar numa fase de negação do problema ou contemplar o que está vivendo. Há também aqueles que já estão na etapa de ação, de trabalhar para sair daquela situação”, complementa Spanemberg.
Em alguns casos, os médicos podem também prescrever medicações.
“Sabemos que remédios da classe dos antagonistas opioides podem ajudar a segurar aquele comportamento típico da aposta”, cita Andrade.
O psiquiatra também lembra dos grupos de apoio. “No Brasil, temos os Jogadores Anônimos e o Gaming Addicts, que fazem um trabalho muito bom”, sugere ele.
Transtorno de jogo: a demanda por tratamento vai aumentar?
Diante da popularidade das bets — que, por exemplo, hoje patrocinam a maioria dos clubes de futebol da Série A do Campeonato Brasileiro —, existe um temor em termos de saúde pública sobre o aumento de casos de transtorno do jogo.
Entre os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, essa preocupação é clara.
“Precisamos discutir não apenas as repercussões sociais do jogo, mas também todas as questões de saúde mental”, concorda Spanemberg.
Tavares lembra que, em meados dos anos 1990, o Brasil viveu a febre dos bingos e das máquinas caça-níquel.
“Em 1996, os casos começaram a chegar lá no Instituto de Psiquiatria da USP. Eu era professor auxiliar e ouvi uma primeira pessoa dizer que gastava todo dinheiro nos bingos, se arrependia, ficava péssimo e depois tentava recuperar”, lembra ele.
“Resolvi transformar esse e outros relatos no meu objeto de estudo. Em 1998, após terminar meu doutorado, abri o Ambulatório de Jogo, onde fazia longas entrevistas com jogadores compulsivos e oferecia tratamento a eles.”
Com o passar do tempo, o serviço foi formalizado e precisou ser ampliado.
“A depender da época, chegamos a ter entre 5 a 10 profissionais contratados e outros 60 a 70 voluntários no ambulatório. No auge, contamos com cerca de 80 colaboradores”, estima Tavares.
Essa demanda foi reduzida com o fechamento dos bingos, em meados de 2004. Mesmo assim, ela nunca chegou a cessar.
Mais recentemente, de 2018 em diante, com a inundação das bets e outros jogos onlines no Brasil, a procura pelos serviços do ambulatório voltou a subir.
“Com a nossa estrutura atual, conseguimos atender 80 casos novos por ano, além de acompanhar outros 160 pacientes que fazem um seguimento por cerca de dois anos”, informa o psiquiatra.
“Mas diante de um fenômeno como esse que vivemos agora, ficamos com o triplo de pacientes na fila de espera.”
“É claro que esses números não retratam a realidade do Brasil, são apenas gotinhas num oceano muito maior”, avalia o especialista.
Para Tavares, o aumento do acesso às apostas está relacionado a uma demanda na frequência do transtorno do jogo entre a população — e será necessário criar um aparato no Sistema Único de Saúde (SUS) para absorver essa demanda de pacientes.
“O jogo sempre existiu e sempre vai existir. O que varia é a forma como se regulamenta esse setor”, avalia o médico.
“Podemos permitir uma maior ou menor penetração deles na sociedade. Se proibimos tudo, isso diminui a demanda por tratamento, embora sempre exista o mercado ilegal.”
“Agora, caso o jogo seja liberado por uma questão de equilíbrio das contas fiscais e economia, será necessário fazer um investimento equivalente na saúde pública. Isso precisa virar uma política de Estado”, opina ele.
“Se esse investimento não acontecer, o tiro sai pela culatra. A arrecadação com eventuais impostos não será suficiente para tapar o buraco do adoecimento mental e das mazelas financeiras relacionadas ao jogo”, conclui o psiquiatra.

