VAR no Senado: A regra é clara, mas o apetite é maior


Davi Alcolumbre operou como um juiz de vídeo que olha o monitor, enxerga a irregularidade, mas decide que o jogo deve seguir. Ao validar a “matemática criativa” do senador Carlos Viana na CPMI do INSS, o presidente do Senado abriu um perigoso precedente no Congresso: o interesse político e eleitoral está de fato acima do regimento e regras da Casa.

O argumento de Alcolumbre é de um pragmatismo gélido: mesmo que o presidente da comissão tenha “se equivocado” na contagem visual, o quórum de presença no painel daria a vitória à oposição de qualquer jeito.

Ora, para que serve então uma votação presencial, se o que vale é o quadro? Das próximas, valerá um plenário vazio. Basta apertar o botão e sair para o almoço, ou para coisas “mais sérias” (contém ironia).

Não obstante, a pressa da oposição em quebrar o sigilo ignora um fato incômodo: Lulinha já havia colocado todos os seus dados bancários e fiscais à disposição da Polícia Federal e do Ministério Público muito antes deste “teatro” parlamentar. Se as autoridades técnicas já têm acesso ao que pedem, a manobra da CPMI desenha um claro desvio de finalidade.

O objetivo ali não é a investigação, mas a exposição seletiva de dados sob o brilho dos refletores.

Lulinha deve sim se explicar, pelo lobby que, por si só, já é um desastre ético. A própria defesa admite que o filho do presidente recebeu dinheiro de Antônio Carlos Camilo Antunes – o enrolado “careca do INSS” – para tentar abrir portas no Ministério da Saúde para um projeto de cannabis medicinal. O projeto não vingou, o Ministério não quis conversa, mas o pecado original está cometido.

Isso, porém, é outra coisa. Não faz parte desta CPMI. Mas o desgaste é um inquilino que não pede licença para entrar no Palácio do Alvorada.

Parente de presidente não faz lobby, quiçá dentro do governo do próprio parente. É regra básica de higiene política. Ao aceitar a missão de ser “ponte” para um empresário que hoje é delator, Lulinha ofereceu no altar da oposição o pescoço do próprio pai. Lula, calejado, já deu o recado público: se o filho errou, que responda sozinho.

Resta saber se a polêmica da vez tem o poder de asfixiar o favoritismo de Lula. A história ensina que o bolso do eleitor costuma ser mais decisivo que o escândalo ético do dia. No entanto, no xadrez de 2026, com a oposição sedenta por revanche e o “golpe do painel” devidamente chancelado, o caso é uma baita munição.

Alcolumbre lavou as mãos. Agora, quem terá que limpar a sujeira é o Planalto.



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