Viva Oscar Schmidt, o cestinha de ouro do Brasil


Bons tempos aqueles, ou pelo menos melhores do que estes, onde chorávamos a morte de nossos ídolos sem levar em conta necessariamente suas posições políticas enquanto viveram.

Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara, foi um golpista nato. À sua época, sempre conspirou para derrubar a democracia. Mas também foi um escritor de raro talento e um emérito orador.

Morreu depois de se reconciliar com adversários que combateu tenazmente – João Goulart, o presidente deposto pelo golpe de 64, e Juscelino Kubitschek, o ex-presidente punido pela ditadura.

Foi bonito ver o país de todas as cores e de todas as tendências políticas reverenciar Tancredo Neves, o presidente eleito em 1985, que morreu sem tomar posse. Seu martírio durou 39 dias.

“Nada do que é humano me é estranho” é uma célebre frase do dramaturgo romano Terêncio (c. 184 a.C.) na comédia Heauton Timorumenos.  A peça narra a história de dois vizinhos.

A expressão sugere empatia, solidariedade e a compreensão de que todas as ações e sentimentos humanos estão interconectados e compreendidos dentro da própria humanidade.

O governo Bolsonaro caracterizou-se pela falta de homenagens oficiais ou de manifestações quando da morte de artistas e de figuras públicas que não rezavam pela cartilha dele. A saber:

Elza Soares, Beth Carvalho, Tarcísio Meira, Eva Wilma, Orlando Drummond, Aldir Blanc, Moraes Moreira, Rubem Fonseca, Flávio Migliaccio, Luís Gustavo, Paulo José, Nelson Sargento.

Outros esquecidos: o jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira, cujas assassinatos em uma expedição à floresta Amazônica geraram intensa repercussão mundial em 2022.

Na gestão Bolsonaro, a Fundação Palmares retirou homenagens a 27 personalidades negras (Gilberto Gil, Elza Soares e Martinho da Vila). O governo revogou 25 decretos de luto de gestões passadas.

Presidente em exercício, uma vez que Lula está na Europa, Geraldo Alckmin decretou luto oficial de três dias no país pela morte de Oscar Schmidt, um dos maiores nomes do basquete mundial.

Sobre Oscar, também conhecido como “Mão Santa”, embora preferisse se chamar de “Mão Treinada”, Lula escreveu em sua conta oficial no X:

“Exemplo de obstinação, talento e de amor à camisa da Seleção. Sua dedicação elevou o nome do país e fez dele inspiração para gerações de atletas e amantes do esporte”.

O único bolsonarista relevante que lamentou a morte de Oscar foi Flávio Bolsonaro, em sua nova versão de político moderado:

“Perdemos hoje Oscar Schmidt, nosso maior ídolo do basquete brasileiro e referência em todo o mundo. Que a sua vontade de vencer, amor à Pátria, disciplina e determinação inspirem a todos nós, em especial jovens e crianças. Que Deus o tenha ao seu lado e conforte familiares e amigos.”

Compreensível a contenção de Flávio. Oscar, no final dos anos 1900, concorreu a uma cadeira ao Senado pelo Partido Progressista Brasileiro (PPB), de Maluf, hoje Progressistas (PP).

Ele tinha o sonho de virar presidente. Acabou derrotado por Eduardo Suplicy (PT). Oscar foi uma das celebridades que apoiaram Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais de 2018.

Mais tarde, no entanto, criticou Bolsonaro pela forma que ele enfrentava a pandemia da Covid-19. Na ocasião, falou sobre o esquema da “rachadinha” que envolvia Flávio e seus irmãos.

“Tristes Trópicos” é um ensaio do antropólogo e filósofo francês Claude Lévi-Strauss, publicado em 1955, na França. A obra documenta suas viagens, centrando-se principalmente no Brasil.

Tempos tristes, estes, quando não sabemos assegurar a convivência democrática numa sociedade descrente de si.  “Mão Santa” sabia encaçapar a bola à distância ou então repassá-la.

 

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