Na Amazônia, o tempo não se mede apenas pelo relógio. Ele se mede pela cheia e pela vazante dos rios, pelo esforço necessário para chegar onde a estrada não chega. Em um estado onde comunidades inteiras dependem da dinâmica das águas e onde o deslocamento pode levar dias, falar em desenvolvimento exige compreender essa realidade.
É nesse cenário, onde o Brasil parece distante dos grandes centros decisórios, mas central na biodiversidade, na geopolítica e no debate climático global, que um modelo econômico transformou galpões industriais em salas de aula, incentivos fiscais em laboratórios e política tributária em formação acadêmica.
A Zona Franca de Manaus costuma ser debatida em Brasília sob a lógica da planilha: quanto custa, quanto arrecada, quanto renuncia. Mas, no Amazonas, ela é vivida sob outra lógica: quantos médicos forma, quantos engenheiros retém, quantos professores chegam ao interior, quantas pesquisas deixam de ser sonho e viram solução.
Modelo que vai além da fábrica
Quando foi criada, em plena ditadura militar, a Zona Franca tinha objetivo claro: integrar a Amazônia ao restante do país. A preocupação era fixar população, garantir soberania e estruturar economia em um território vasto e historicamente negligenciado pelo poder central.
Ao longo das décadas, o modelo evoluiu. Consolidou-se como polo industrial relevante, especialmente nos setores de eletroeletrônicos, duas rodas e bens de informática. Sobreviveu a crises econômicas, mudanças de governo e revisões constitucionais. Foi prorrogada sucessivamente até ter a vigência garantida na Constituição Federal até 2073.
Mas, a legislação que sustenta esse modelo exige contrapartidas. Empresas beneficiadas pelos incentivos fiscais devem investir em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I). E, pela Lei de Informática, 5% do faturamento líquido deve ser destinado a essa finalidade.
No Amazonas, isso não é formalidade contábil. É um motor transformador.
“Quando alguém fala da Zona Franca apenas como renúncia fiscal, está olhando metade da equação. O Polo Industrial financia pesquisa, sustenta universidades e cria um ecossistema de inovação que impacta o estado inteiro.”
Bosco Saraiva, superintendente da Zona Franca de Manaus
Universidade financiada pela indústria
A Universidade do Estado do Amazonas (UEA) é talvez o exemplo mais concreto dessa interdependência.
Enquanto em outras unidades da federação as universidades estaduais dependem majoritariamente do orçamento estadual, no Amazonas a sustentação da UEA está conectada ao desempenho industrial.
Presente nos 62 municípios do estado, ela é mantida com recursos vinculados às contribuições das empresas instaladas no Polo Industrial.
Em 2025, essa conexão atingiu um patamar histórico. O financiamento destinado à Universidade do Estado do Amazonas ultrapassou R$ 929 milhões, consolidando a instituição como um dos maiores patrimônios educacionais sustentados pelo modelo da Zona Franca.
O número não é apenas orçamentário, ele representa salas funcionando no interior, laboratórios equipados, bolsas de pesquisa mantidas e milhares de estudantes assistidos.
Em 25 anos, a UEA formou mais de 80 mil profissionais. São médicos atuando no interior profundo, engenheiros absorvidos pela indústria e pelos institutos tecnológicos, professores indígenas fortalecendo a educação básica em territórios tradicionais, e pesquisadores desenvolvendo soluções adaptadas à realidade amazônica.
Para o reitor André Zogahib, a universidade é hoje uma política pública estruturante.
“A UEA não é apenas uma instituição de ensino superior. Ela é uma ferramenta de redução de desigualdade regional”, afirma.
Segundo ele, a interiorização do ensino superior no Amazonas não pode ser analisada sob a mesma lógica de estados com malha rodoviária consolidada.
“Educação não é gasto, é investimento. E, no Amazonas, isso é literal.”
André Zogahib, reitor da UEA
Antes, concluir o Ensino Médio em muitos municípios significava enfrentar um dilema: migrar para Manaus, com custos financeiros e emocionais elevados, ou abandonar o sonho da graduação. Hoje, a universidade está presente em boa parte do território. O ensino chega por barco, por estrada, por avião quando necessário. Chega como política pública estruturada.
Cursos como Engenharia registram empregabilidade quase imediata, impulsionada pelo Polo Industrial. Medicina, que enfrentou dificuldades nos primeiros anos, apresentou evolução em indicadores e infraestrutura. Segundo a gestão da UEA, cerca de 80% dos cursos cresceram em avaliações recentes.
“Nós formamos profissionais conectados à realidade do Polo Industrial. Isso explica a absorção rápida de engenheiros e tecnólogos”, explica o reitor.
Inovação aplicada
Se a UEA representa o braço educacional do modelo, os institutos de tecnologia são a força aplicada.
Ao todo, 183 institutos estão aptos a receber recursos de PD&I no Amazonas. Apenas em 2025, os investimentos superaram R$ 1,6 bilhão.
Esses recursos financiam projetos de automação industrial, inteligência artificial, sistemas embarcados, certificação técnica, desenvolvimento de softwares, biotecnologia e soluções ambientais.
“Aqui, a pesquisa nasce de uma demanda real. A indústria traz o desafio, e o instituto transforma isso em solução tecnológica.”
Armando Ennes do Valle, diretor de Negócios da FPFtech (Fundação Paulo Feitoza)
A FPFtech desenvolve sistemas, faz certificações, testa equipamentos, estrutura projetos de alta complexidade. Estudantes se tornam bolsistas. Bolsistas se tornam pesquisadores. Pesquisadores se tornam especialistas absorvidos pelo mercado.
Esse movimento altera uma lógica histórica da Amazônia: a migração compulsória de talentos.
“Antes, o jovem que queria trabalhar com tecnologia precisava sair do estado. Hoje, ele encontra aqui projetos de alta complexidade”, frisa Armando.
O Polo Industrial é uma ferramenta
Nilmar Pimenta, diretor educacional da FPF, destaca que o maior erro do debate nacional é tratar a Zona Franca como exceção fiscal, quando ela é, na prática, um modelo de desenvolvimento regional consolidado.
“O Polo Industrial não é um privilégio. É uma ferramenta. Ele gera arrecadação, emprego, pesquisa e formação. Quando se enfraquece o modelo, enfraquece-se toda essa cadeia”, pondera.
Para Nilmar, o impacto é sistêmico. A indústria não se limita a gerar postos de trabalho diretos. Ela movimenta serviços, logística, comércio e, principalmente, conhecimento.
“Se você enfraquece a indústria, enfraquece a universidade. Se enfraquece a pesquisa, perde competitividade. É um sistema integrado.”
Nilmar Pimenta, diretor educacional da FPF
Ele ainda explica que o Amazonas preserva mais de 90% da cobertura florestal original; e que o Polo Industrial é apontado como um dos elementos que reduziram a pressão por atividades predatórias em larga escala.
Modelo sob pressão
Apesar da consolidação histórica, a Zona Franca nunca foi consenso nacional.
Debates sobre reforma tributária reacendem questionamentos sobre incentivos regionais. Estados mais industrializados questionam competitividade. Economistas discutem eficiência fiscal.
Marcos Roberto de Paula, diretor da Fundação Matias Machline, alerta que a discussão precisa considerar desigualdades estruturais.
“Não se pode tratar igualmente os desiguais. A Amazônia tem desafios logísticos, geográficos e históricos que não se comparam ao restante do país”, ressalta.
A floresta real
A Amazônia é frequentemente retratada como lugar distante da tecnologia. Mas, nos laboratórios, a cena é outra: jovens pesquisadores discutindo inteligência artificial, sistemas embarcados e certificações técnicas em estruturas modernas instaladas no meio da maior floresta tropical do planeta.
“Quando se fala em acabar ou reduzir incentivos, é preciso perguntar: o que acontece com a universidade? Com os institutos? Com a formação de milhares de jovens?”, questiona Bosco Saraiva, superintendente da Zona Franca de Manaus.
A Amazônia sempre foi vista como fronteira ora a ser ocupada, ora a ser preservada. O que o modelo da Zona Franca demonstra é que ela também pode ser território de conhecimento.


