Escondida entre galhos de árvores sem poda, uma casa com aspecto quase sombrio contrasta em meio a terrenos floridos de um condomínio localizado em uma área de luxo do Park Way, no Distrito Federal. A residência, outrora utilizada como lar por uma família, viralizou pelo estado de abandono e pelo cenário semelhante ao de um filme de terror.
O Metrópoles esteve no endereço. No terreno, móveis empoeirados, teias de aranhas intactas e uma piscina tomada por água suja– encoberta pela densa vegetação – denunciam a negligência sofrida pela propriedade.
À primeira vista, um detalhe vermelho, em meio a tons predominante de marrom, atrai o olhar de quem passa pelo local. Na garagem, coberto por uma fina camada de terra, um exemplar do clássico Porsche 911 também carrega as marcas do abandono.
O carro, porém, não foi o único veículo deixado para trás. Além dele, um Fiat Marea, um jetsky e duas motos também encontram-se abandonados.
Veja:













Na porta de entrada — protegida por correntes e cadeados — um vidro quebrado revela detalhes intrigantes do interior do imóvel.
Como se não tivessem sido tocados pelo tempo, móveis estampados, quadros decorativos e até um porta-retrato apoiado sobre a lareira permanecem em seus devidos lugares.
Na mesa de centro, peças de um jogo de xadrez, perfeitamente posicionadas sobre um tabuleiro, quase convidam o observador para uma partida. Elementos como esses despertaram a curiosidade de moradores de Brasília, que tentam entender o motivo do misterioso abandono da propriedade, recentemente colocada em leilão com lance inicial de R$ 1 milhão.






O terreno em questão fica ao lado do Aeroporto Internacional de Brasília e ocupa mais de 2 mil metros quadrados. A casa tem dois andares, espaço de lazer e preenche lote em área considerada nobre. Mesmo assim, o imóvel – que conta até mesmo com um pergolado, agora desmoronado – foi deixado à própria sorte há pelo menos 10 anos.
Como consequência de anos sem reparos, o terreno que circunda a propriedade é repleto de armadilhas.
Por falta de rastelagem, por exemplo, um mar de folhas caídas engole quem tenta se aproximar da casa, tal qual areia movediça. Água parada e árvores que ameaçam tombar também foram apontados por moradores vizinhos como tragédias anunciadas.








“A Justiça que resolva”
Conforme consta no Diário de Leilões, o imóvel será leiloado para pagamento de dívidas de condomínio. O valor, que já supera R$ 140 mil, não é pago pelo proprietário desde 2013.
O imbróglio, então, parou em âmbito judicial. Depois de várias tentativas de resolver o impasse e até mesmo buscas frustradas por bens do dono da casa para quitação dos débitos, a residência acabou sendo penhorada em 2025.
A reportagem teve acesso à ação. Nela, uma testemunha declarou, em documento reconhecido em cartório, que o proprietário teria dito, em dezembro de 2023, que “abandonou o imóvel” e que “a Justiça que resolva” a situação.
O Metrópoles também apurou que o proprietário costuma aparecer esporadicamente no endereço. Apesar disso, nunca teria procurado a administração do condomínio para findar as pendências. Também não realizou reparos nem retirou os veículos abandonados.
Histórico
Segundo a matrícula do imóvel, a propriedade teve apenas um dono desde sua origem. O terreno foi adquirido em 1996 por um ex-servidor público, casado sob regime parcial de bens. A casa foi construída posteriormente pelo casal.
Com o tempo, os proprietários deixaram de pagar a taxa de condomínio — que, à época, era de R$ 300 — e acabaram abandonando o local aos poucos. Com a incidência de juros, a dívida chegou a R$ 141.802,16.
O Metrópoles apurou que o dono da casa acumula inúmeros outros processos judiciais também relacionados a falta de pagamentos. No âmbito criminal, tem passagens pela polícia por ameaça, Lei Maria da Penha, difamação e evasão do local de acidente de trânsito.
O leilão da casa ocorrerá em dois lotes. O primeiro está marcado para 4 de maio e terá lance inicial de R$ 1,1 milhão. Caso não haja lances no primeiro lote, o segundo acontecerá em 7 de maio, com valor inicial de R$ 669 mil.
O outro lado
Por meio de nota, o dono do lote no Park Way negou a situação de abandono. Segundo o homem, os veículos e móveis estão trancados e protegidos dentro da casa, que tem “acompanhamento” e “constante visitação” dele.
Ao Metrópoles, o proprietário disse que o imóvel passa por “litígio em um processo de separação judicial e divisão de bens entre cônjuges”. Além disso, atribuiu a responsabilidade da atual situação do terreno à “incompetência da Justiça” no processo de divórcio.
Conforme informou, a ex-companheira não foi intimada, prejudicando a “solução do problema” e majorando “a dívida” do condomínio. De acordo com ele, a falta da citação da mulher também “impedirá a realização do leilão”. “Como foi o caso de outro imóvel leiloado indevidamente em 2014”, declarou.
Na nota, o proprietário confirmou a existência de outros processos por inadimplência. “[São] sobre os veículos que lá [na casa colocada a leilão] estão devidamente guardados, aguardando a solução judicial”, explicou.
Ele negou, ainda, ter cometido agressões ou ameaças: “Posso afirmar que são mais especulações infundadas e mentirosas, já que nunca agredi ninguém em minha vida. A única questão, quanto a alguns profissionais da Secretaria de Saúde, foi devidamente denunciada na ouvidoria do GDF”.


