Quem morre de véspera é peru. Candidato, não. Na política, o jogo só acaba quando o último voto é digitado na urna. Dar como certo o resultado de uma eleição com base em pesquisas — sejam elas espontâneas ou induzidas — é o primeiro passo para o erro.
Pesquisa não é destino; é retrato de momento. E o retrato, às vezes, vira filme de terror ou de suspense nas 48 horas que antecedem o pleito. A pesquisa espontânea mede a convicção; a induzida, a rejeição e a lembrança. Mas nada mede o imponderável.
O poder da mídia para entronizar presidentes é relativo, embora ela sempre tente. Em 1989, a imprensa carregou Fernando Collor no colo para barrar o avanço de Leonel Brizola e Lula. Deu certo. Mas em 1994 e 1998, quem elegeu Fernando Henrique não foi o editorial de nenhum jornal, foi o bolso do brasileiro com o Plano Real.
Lula venceu em 2002 e 2006 contra a mídia. Dilma, em 2010 e 2014, idem. Em 2018, a mídia tentou ignorar Bolsonaro, mas a facada em Juiz de Fora e o antipetismo se impuseram. Depois de quatro anos de pancadaria mútua, a imprensa teve que engolir Lula em 2022. Não havia outro nome capaz de despachar o “capitão”. E foi por um triz.
Hoje, a mídia sonha com a “terceira via”, o candidato nem-nem. No papel, parece lindo; na prática, está difícil. Mas na política, o “nunca” e o “jamais” têm prazo de validade curto. Se até o início da campanha, em agosto, um Ronaldo Caiado ou um Romeu Zema mostrar musculatura, o cenário muda. Para o “establishment”, qualquer um deles pode ser menos amargo que Lula ou o próprio Flávio Bolsonaro.
Até Flávio, vejam só, pode acabar se tornando palatável. O argumento está pronto: ele seria mais “domesticável” que o pai, sem o carisma ou a conexão direta do pai com as massas que assusta tanto a Faria Lima e o agronegócio. Seria apenas um sobrenome sem ideias para ocupar a cadeira. Ou um “enviado divino” como ele se apresenta.
O alvo principal da mídia continuará sendo Lula. Para muitos, ele é o perigo maior. Por isso, a ordem é bater nele sem piedade. Se for preciso retorcer os fatos para prejudicá-lo, que se retorça. O sonho da elite era que Lula desistisse do quarto mandato. Mas ele teima. E quem teima, na política, costuma dar trabalho até o último minuto da prorrogação.


