FÉ E DEVOÇÃO
Aos 84 anos, Maria de Jesus continua viajando para santuários religiosos e divide com outras fiéis a devoção que reúne milhares de alagoanos em romarias pelo Nordeste
A fé e a devoção aos santos padroeiros mantêm viva uma tradição que atravessa gerações em Alagoas: as romarias. Ao longo do ano, milhares de fiéis percorrem estradas para participar de celebrações religiosas, fazer orações e agradecer por graças alcançadas. Entre os principais destinos está Juazeiro do Norte, no Ceará, cidade que recebe peregrinos de diferentes regiões do país.
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De janeiro a setembro de 2026, mais de 44 mil alagoanos viajaram até Juazeiro do Norte. O número reforça a presença histórica dos romeiros do estado nas celebrações religiosas realizadas na cidade, especialmente as dedicadas a Padre Cícero e a Nossa Senhora das Dores.
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Em Alagoas, a tradição também se manifesta em peregrinações para outros municípios e santuários. Para muitos fiéis, a viagem representa mais do que um deslocamento: é um momento de renovação da fé, agradecimento e convivência com pessoas que compartilham a mesma devoção.
Aos 84 anos, Maria de Jesus continua firme na tradição que acompanha desde a juventude. O sonho de participar de romarias se transformou em parte de sua vida, e a idade não diminuiu a vontade de seguir viagem.
“É a fé que eu tenho. Eu vou com fé. Não vou de brincadeira, vou com fé”, afirma.
Ao longo dos anos, ela participou de inúmeras peregrinações. Além de Juazeiro do Norte, a romeira já visitou destinos como São Severino, Pilar e União dos Palmares, entre outros locais de devoção.
A experiência também inclui momentos difíceis. Em uma das viagens, Maria precisou de cadeira de rodas para chegar à igreja e participar das celebrações. Segundo ela, a recuperação da saúde foi uma graça alcançada por meio da fé.
“Fiquei boa, graças a Deus. Fiquei boa, porque só Jesus, meu padrinho Cícero e Nossa Senhora das Dores foram quem me fizeram ficar assim”, relata.
A música também faz parte da devoção. Durante as viagens, Maria canta benditos e participa das missas, compartilhando momentos de oração com outros romeiros.
Mesmo com o passar dos anos, ela já tem novas viagens programadas e não pensa em abandonar a tradição.
A devoção também aproximou Maria de Jesus de Lourdes, outra romeira que começou a participar das peregrinações ainda na infância.
Lourdes recorda que, antigamente, as viagens eram feitas em paus de arara e podiam durar até três dias. Com o tempo, as condições de deslocamento mudaram, mas a fé permaneceu como principal motivação para seguir até os locais sagrados.
“Comecei muito nova no meu Juazeiro, de pau de arara. Eu visitava de pau de arara, eram três dias para nós chegarmos”, lembra.
As duas se conheceram depois que Maria passou a morar no bairro Benedito Bentes, em Maceió. A partir daí, começaram a viajar juntas e fortaleceram uma amizade construída durante as peregrinações.
Além de Juazeiro do Norte, elas participam de romarias em outros destinos religiosos. Para Lourdes, dividir as viagens, as orações e os cantos com os demais fiéis torna a experiência ainda mais especial.
A preocupação com a amiga também demonstra a força desse vínculo. Em momentos de dificuldade, Lourdes recorreu à oração e manteve a esperança de que Maria voltaria a acompanhá-la nas peregrinações.
Tradição religiosa e convivência social
As romarias fazem parte da cultura religiosa nordestina e reúnem pessoas de diferentes idades e municípios. Durante o percurso, os fiéis compartilham orações, cânticos e histórias de graças alcançadas.
Além da dimensão espiritual, as peregrinações movimentam o turismo religioso e contribuem para a economia dos destinos visitados, com impacto em setores como transporte, alimentação, hospedagem e comércio.
Em Alagoas, histórias como as de Maria de Jesus e Lourdes mostram como a tradição permanece viva por meio da participação dos fiéis e da transmissão dos costumes entre gerações.
Para essas mulheres, a romaria é mais do que uma viagem. É uma expressão de fé, amizade e esperança que continua a marcar suas trajetórias.



