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Comká e sem caráter. O que está além da lama (por Pedro Costa)


Sempre houve, em toda sociedade, em todos os países, pessoas que despertam um asco imediato. A literatura está cheia deles. O Uriah Heep de David Cooperfield — quando David lhe dá a mão sente a pele pegajosa, tão desagradável ao toque como à vista — que espelha a degradação moral no físico arrevesado. O Iago de Otelo — que Coleridge disse ser quase o demônio, mas não realmente o demônio. Os inúmeros encontros de Dante e Virgílio na Commedia. O Vautrin que perpassa a Comédie Humaine, com sua ilustração imortal por Daumier.

Este é, para mim, o espelho corporal de Kássio Nunes Marques. Mas é o seu comportamento, a sua negação da Lei e da ética, que o tornam repulsivo à maior parte dos brasileiros. Kássio Nunes Marques ainda será julgado e, do ponto de vista jurídico, deve ter o benefício da presunção de inocência. Isso não impede que socialmente o condenemos e desejemos que receba as penas mais severas que estejam na lei. Será pouco, pois seu comportamento amoral, que tudo contamina, não é punido pela lei.

A indicação para o Supremo Tribunal Federal, como a de André Mendonça, feita por um genocida e golpista declarado, é ilegítima, e para a legitimar não basta a aprovação pelo Senado Federal. Ela se deve a um encontro casual com Flávio Bolsonaro, que o levou ao pai para substituir o Ministro Celso de Melo, na época decano da Corte e que antecipara a aposentadoria por motivos médicos. O contraste da superficialidade de seus conhecimentos jurídicos com a profundidade dos do Ministro Celso só é menor que a disparidade entre seus comportamentos pessoais.

ComKá, como logo foi conhecido e reconhecido, levava para o Supremo uma reputação de desonestidade, se ainda vaga em relação a suas sentenças, muito clara quanto a sua expressão intelectual. Hoje se conhece um pouco do esquema corrupto que deixou no TRF-1, por onde passara antes. Foram divulgados também alguns aspectos de sua relação com Daniel Vorcaro, apoiada em contribuições que levaram seu filho — que talvez não tenha responsabilidade nos fatos — a amealhar uma fortuna de mais de 27 milhões em seus 26 anos de idade e no contrato semi-bilionário da “turma do Kássio”.

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do Metrópoles

O apetite de ConKá pelas garotas bancadas pelo irmão Vorcaro só é igual ao pelas mordomias. A combinação dos dois o leva a delírios azuis. O problema maior é que seu patrono está provavelmente envolvido com tráfico de refugiadas de guerra, por mais de uma razão crime contra a humanidade, portanto imprescritível, e talvez algumas das garotas estivesse entre estas. Isso faria passar seu comportamento de ignóbil a criminoso.

Ao deparar-se com as evidências de sua irmandade, ComKá se afastou do imbróglio criado pelo coleguinha Terrivelmente Mendonça para, disse ele, não contaminar sua nobre função de presidente do Tribunal Superior Eleitoral. A piada deveria ter sido manchete em todos os jornais, mas estes estavam com as bocas tão cheias de sangue do prometido linchamento que acharam uma nobre atitude.

Pois é: no delírio de seguir a rotina das movimentações nos tribunais superiores, admitiu-se como presidente e vice-presidente da Corte Eleitoral os dois impedidos por suas relações pessoais: o notório vinculo do Terrivelmente à anti-pentecostal senhora que, para comemorar a aprovação de seu nome, teve um surto em que falou línguas diabólicas (os apóstolos, como se sabe, ao receber o Espírito Santo, falaram hebraico ou aramaico, sendo compreendidos por pessoas de várias partes do mundo como se falassem a língua de cada uma, o que exclui essa origem para a inspiração da Michela); o ComKá, por sua amizade íntima com o candidato à Presidência da República.

Aconteceu, então, o inevitável. Os dois, numa competição sobre quem é mais parcial e desonesto, meteram-se a dar decisões que perturbam o processo eleitoral. A principal dinâmica é dar rapidamente preliminares que favoreçam o Bolsonaro (Flávio apresenta-se como interposta pessoa de Jair) e segurar decisões que favoreçam Lula. Se a manobra agastou parte da Corte, ela foi engolida em seco, pois ninguém quer dar pretexto para a contestação das urnas eleitorais, velha e encarquilhada ladainha bolso-trumpista.

Vitoriosa a chapa da dupla de juízes parciais no primeiro turno, um dos pontos da virada lulista — não o principal, que é a ida do povo, juventude à frente, às ruas, para dizer um não ao golpe de Estado, principal proposta bolsonarista — foi o “canal de zap” organizado pelo deputado André Janones. Diante da falsa acusação de disseminação de fakenews (talvez por as considerar como patenteadas por seu campo) o relator, Villas Bôas Cueva, pediu que as ditas cujas fossem explicitadas. Foi logo atropelado por Conká, que — ilegalmente — mandou fechar o Exército do Lula. O ministro atacado não se intimidou e restabeleceu o canal. ConKá pediu à assessoria técnica que lhe encontrasse provas. Como ela não encontrou, ele pulou o muro e suspendeu, sempre ilegalmente, os mais de quatro milhões de participantes da internet, exigindo que o canal se tornasse oficial, como não são os canais bolsonarista e fakenewsistas do Tarcísio de tal, do Nicolas de tal etc. e tal. Apesar de se ter aceito a decisão teratológica, a suspensão do canal por 48 horas a partir da oficialização continua, porque sim. Isto é censura e censura prévia, aquela que fez Adauto Lúcio Cardoso deixar a toga no espaldar de sua cadeira do plenário do Supremo Tribunal Federal para nunca mais voltar.

A ousadia não se pode dizer que é imotivada: se não for salvo pelo bolsonarismo, ConKá já está vendo as grades; se, por outro lado, o sonho bolsonarista de linchar o ministro Alexandre de Moraes se realizar Conká assumirá — como demonstrou o jornalista Ricardo Noblat —, em 2027, a presidência do Supremo Tribunal Federal.

Então o Brasil sofreria um banho de lama maior que os dados pela Vale no Rio Doce e pelas geleiras no Nepal.

Pedro Costa, arquiteto e escritor.



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