A proximidade com o Canal do Sertão contrasta com uma dificuldade que ainda faz parte da rotina de comunidades quilombolas de Pariconha, no Sertão de Alagoas: ter água tratada chegando regularmente às torneiras. O problema esteve entre as principais demandas apresentadas ao Ministério Público Federal (MPF), na última quinta-feira (20), durante reunião com moradores e…
A proximidade com o Canal do Sertão contrasta com uma dificuldade que ainda faz parte da rotina de comunidades quilombolas de Pariconha, no Sertão de Alagoas: ter água tratada chegando regularmente às torneiras. O problema esteve entre as principais demandas apresentadas ao Ministério Público Federal (MPF), na última quinta-feira (20), durante reunião com moradores e lideranças das comunidades Sítio Rolas, Alto dos Capelas e Campo do Urubu.
![]()
Realizado na Escola Municipal de Educação Básica Padre Epifânio Moura, em Sítio Rolas, o encontro contou com a participação do procurador da República Eliabe Soares e do antropólogo Ivan Farias, além de lideranças das três comunidades. A visita faz parte do acompanhamento realizado pelo MPF sobre as condições de vida e o acesso a políticas públicas destinadas às comunidades quilombolas da região.
![]()
Em Sítio Rolas, onde vivem aproximadamente 40 famílias, os moradores relataram dificuldades relacionadas ao abastecimento de água, saneamento, saúde, manutenção das estradas, limpeza urbana e apoio à produção agrícola. O MPF acompanha a comunidade desde 2022, quando a Fiscalização Preventiva Integrada (FPI) esteve na localidade.
Água perto, mas ainda distante das casas
Embora Sítio Rolas esteja próxima ao Canal do Sertão e tenha recebido infraestrutura relacionada ao Subsistema 12, executado pela Codevasf, a comunidade ainda não conta com abastecimento regular de água tratada. Durante a reunião, foi explicado que a chegada da água bruta à região é apenas uma etapa do processo: ainda são necessários tratamento e distribuição até as residências.
![]()
Enquanto o serviço não é regularizado, famílias recorrem a alternativas domésticas, como filtro de barro, hipoclorito e fervura. Os relatos também indicaram que parte dos moradores consome a água sem tratamento adicional.
A situação é igualmente preocupante em Alto dos Capelas, comunidade também com cerca de 40 famílias. Segundo as lideranças, há rede instalada, mas a água deixou de chegar regularmente às residências, levando os moradores a depender de carros-pipa.
O MPF buscará informações junto à Codevasf, à concessionária responsável e ao Município sobre as providências necessárias para a regularização do abastecimento. Também deverá acompanhar a possibilidade de inclusão das famílias quilombolas em mutirões de cadastramento para acesso à tarifa social de água.
Saúde é preocupação comum
A dificuldade de acesso à saúde apareceu nos relatos das três comunidades. Em Sítio Rolas, moradores informaram que uma obra destinada à implantação de uma unidade de saúde está paralisada há cerca de sete anos. Também foram relatadas pouca frequência das visitas de profissionais de saúde e dificuldades para conseguir ambulância.
A comunidade pediu alternativas que aproximem o atendimento das famílias, como uma unidade móvel com serviços médicos e odontológicos para crianças e adultos.
![]()
Em Alto dos Capelas e Campo do Urubu, os moradores também apontaram dificuldades no atendimento pela unidade de referência em Campinhos, especialmente pela quantidade limitada de fichas e pelos problemas para conseguir transporte em situações de urgência.
O MPF deverá solicitar ao Município informações e providências para ampliar a assistência às comunidades, incluindo esclarecimentos sobre a obra paralisada, atendimento por equipe ou unidade móvel, assistência odontológica, regularidade das visitas dos profissionais e disponibilidade de ambulância.
Produzir e permanecer no território
A reunião também mostrou que o acesso às políticas agrícolas é considerado essencial pelas famílias não apenas para a produção de alimentos, mas para geração de renda e permanência no território. Moradores de Sítio Rolas pediram tratores, implementos agrícolas, kits de irrigação e sementes de milho e feijão.
A comunidade informou ter recebido alevinos após articulações anteriores, mas relatou que não houve capacitação para o manejo adequado dos peixes. O MPF deverá reiterar as demandas junto à Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária (Seagri) e buscar apoio técnico para que a piscicultura possa efetivamente se transformar em atividade produtiva.
Outro relato foi a interrupção, desde 2022, da distribuição de cestas básicas anteriormente recebidas pelas comunidades por meio de políticas envolvendo a Conab e a Fundação Cultural Palmares. O MPF buscará informações sobre a interrupção e sobre os programas de segurança alimentar atualmente disponíveis às famílias quilombolas.
![]()
Para o procurador da República Eliabe Soares, a aproximação entre as comunidades e as instituições também fortalece a capacidade dos próprios moradores de reivindicar seus direitos. “Quando a comunidade conhece seus direitos e sabe que pode procurar o Ministério Público Federal, ela também se fortalece para cobrar políticas públicas. Nosso papel é ouvir essas demandas, identificar os responsáveis e buscar caminhos para que direitos que já estão garantidos possam chegar, de fato, às comunidades”, afirmou.
A partir dos relatos, o MPF dará continuidade ao acompanhamento das demandas e buscará interlocução com órgãos públicos e prestadores de serviços responsáveis por áreas como abastecimento de água, saúde, saneamento, infraestrutura, agricultura, segurança alimentar e proteção territorial.
1.11.001.000092/2023-83 – Acesso a programas sociais no Sítio Rolas
1.11.001.000334/2023-39 – Fornecimento de água e esgotamento sanitário no Sítio Rolas
1.11.001.000335/2023-83 – Serviços de saúde no Sítio Rolas
1.11.001.000272/2024-46 – Limpeza urbana no Sítio Rolas
Fonte:Source link


