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Entenda a polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida na campanha eleitoral 2026


A menos de uma semana do primeiro turno das eleições de 2026, Nossa Senhora Aparecida passou a ser alvo de manifestações que opõem diferentes setores políticos e religiosos. De um lado, grupos associados à direita e a setores evangélicos; de outro, reações de grupos ligados à esquerda e ao catolicismo.

A troca de acusações e declarações ganhou espaço nas redes sociais ao longo dos últimos dias e levou o tema também à Justiça Eleitoral.

O episódio começou na noite de quinta-feira (24/9), quando passaram a circular na internet publicações afirmando que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) estaria por trás de um plano para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

Em pouco tempo, o conteúdo viralizou.

Segundo as publicações, a articulação teria partido de setores evangélicos próximos ao senador. A informação, porém, não encontra respaldo em um projeto atualmente em tramitação e foi negada por Flávio.

Como surgiu o boato

A origem do boato está em um comentário exibido mais cedo naquele dia, durante um programa de uma emissora de TV que analisava a disputa eleitoral, o voto feminino e o comportamento do eleitorado religioso.

Na ocasião, foi mencionada uma suposta reação de setores católicos a uma parcela de evangélicos, que estariam articulando um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

A análise também apontava que uma eventual reação entre católicos poderia ter efeito eleitoral em favor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição contra Flávio Bolsonaro.

Na fala original, porém, não houve atribuição do suposto projeto a Flávio. Depois da transmissão, o trecho passou a circular nas redes sociais acompanhado da afirmação de que o candidato do PL pretendia retirar ou apoiava a retirada do título de Padroeira do Brasil.

O canal responsável pela veiculação publicou uma correção e pediu desculpas na madrugada de sexta-feira (25/9), reconhecendo o erro na forma como a informação havia sido apresentada.

No entanto, o conteúdo que viralizou recuperou um projeto de lei apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victório Galli (MDB-MT). A proposta previa alterar a legislação sobre o feriado de 12 de outubro e sugeria substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.

A proposta foi arquivada pela Câmara em agosto de 2008 e não tem relação com Flávio Bolsonaro nem com o PL.

Fala antiga de Flávio inflou os ânimos

O boato também ganhou força por causa de uma declaração feita pelo próprio candidato cerca de um mês antes. Ao explicar por que não participaria do primeiro debate presidencial da TV Band, Flávio disse que, se eleito, um de seus primeiros atos como presidente seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

A frase, retirada do contexto original, passou a ser usada nas redes como suposta indicação de que o candidato, que é evangélico e integra a Igreja Comunidade das Nações, teria intenção de enfraquecer símbolos católicos.

Flávio reagiu ainda na quinta, em vídeo gravado durante agenda em Minas Gerais. Ele chamou a informação de mentira e atribuiu sua origem a adversários políticos. O candidato afirmou respeitar todas as religiões e disse que sua equipe jurídica avaliava acionar o TSE para identificar os responsáveis pela disseminação do conteúdo.

Durante a campanha, o senador tem reforçado publicamente sua relação com a fé. Ele tem frequentado cultos e missas e chegou a participar de uma tradicional romaria católica em Trindade, Goiás, ao lado de aliados em julho.

Autoridades comentam a polêmica

Na sexta-feira (25/9), o vice-presidente Geraldo Alckmin publicou um vídeo nas redes sociais afirmando ter recebido mensagens de católicos preocupados com os rumos do episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida.

Sem entrar no mérito da informação sobre Flávio, Alckmin afirmou que, enquanto ele e Lula estiverem à frente do governo, as tradições religiosas brasileiras seguirão protegidas e preservadas. O vice-presidente também disse que o Brasil respeita todas as religiões e é capaz de conservar pacificamente as tradições católicas.

A primeira-dama Janja também se manifestou. Ela publicou nas redes sociais uma foto do presidente Lula segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Na legenda, escreveu: “Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, olhai por nós!”.

Lula e imagem de Nossa Senhora Aparecida

A publicação não faz referência direta a Flávio Bolsonaro. Ela ocorreu horas depois de a polêmica ganhar força nas redes sociais.

A candidata ao Senado por São Paulo Simone Tebet também reagiu ao episódio. Ela compartilhou uma imagem de dentro da Basílica de Aparecida, na qual aparece rezando, acompanhada da legenda: “Que Nossa Senhora Aparecida proteja o Brasil”.

Caso chega à Justiça Eleitoral

A polêmica também chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O ministro André Mendonça determinou que o humorista Antonio Tabet, do Porta dos Fundos, apagasse uma publicação sobre o caso.

Conforme a decisão judicial, a postagem associava a família de Flávio Bolsonaro a um suposto ataque a Nossa Senhora Aparecida. Em caso de descumprimento, foi fixada multa de R$ 30 mil. Segundo o processo, a publicação de Tabet havia ultrapassado 195 mil visualizações poucas horas depois de ser feita.

Ao longo do dia, Mendonça ampliou a decisão para além do caso específico. A nova ordem alcança qualquer conteúdo, de qualquer autor, que repita a mesma alegação. O ministro classificou como “notoriamente inverídica” a afirmação de que Flávio propôs, articulou, apoiou ou pretende promover a retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.

A decisão determina que X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube removam as publicações já identificadas pela campanha de Flávio. Também deverão ser retirados novos conteúdos que reproduzam o mesmo núcleo factual, seja em texto, imagem, áudio, vídeo ou meme. Para esses casos, não seria necessária uma nova decisão judicial a cada publicação.

As plataformas têm 48 horas para informar ao TSE as medidas adotadas e o número de conteúdos removidos. Em caso de descumprimento, foi prevista multa diária de R$ 50 mil por provedor. A decisão ainda será submetida ao plenário virtual da Corte.

Mendonça, no entanto, ressalvou que medida não deve ser utilizada para impedir críticas políticas legítimas ao candidato.

Fé e política na campanha

O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida ocorre em um momento em que referências religiosas têm aparecido com frequência na campanha presidencial.

Nas últimas semanas, vídeos de bispos e arcebispos circularam nas redes sociais com manifestações sobre temas políticos, enquanto materiais distribuídos em igrejas passaram a orientar fiéis sobre critérios para a escolha de candidatos.

Entre os exemplos está o arcebispo emérito de Aparecida, Dom Orlando Brandes. Durante uma missa no Santuário Nacional, em 7 de setembro, ele pediu que os fiéis escolhessem os candidatos levando em consideração a própria consciência e o bem comum. Na mesma homilia, defendeu a soberania nacional e afirmou que “nenhum poder de fora, seja quem for”, deveria mandar no Brasil.

Na campanha, os próprios candidatos também têm recorrido a eventos e símbolos religiosos para se aproximar de diferentes segmentos do eleitorado. Flávio Bolsonaro, por exemplo, participou da tradicional Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade (GO), e percorreu o trajeto de cerca de 22 quilômetros até o santuário.

A presença, porém, também foi interpretada por analistas como um aceno ao eleitorado católico de Goiás.

A campanha de Lula também criou uma frente específica para dialogar com o eleitorado católico. No início deste mês, o PT lançou o movimento “Católicas e Católicos do Brasil com Lula”, dentro dos Comitês Populares de Luta dos Segmentos Religiosos.

O presidente, porém, tem afirmado que não pretende transformar igrejas em palanques eleitorais. Em encontro com pastores no último dia 16, disse que não participa de comícios em templos, sejam católicos ou evangélicos, por considerar a fé um espaço que deve ser respeitado.





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