Na lista de pacientes da cardiologista Ludhmila Hajjar cabe o Brasil político inteiro. Na pandemia, ela tratou o então ministro da Saúde de Bolsonaro, Eduardo Pazuello, e a deputada bolsonarista Carla Zambelli. Também atendeu Tarcísio de Freitas, então ministro da Infraestrutura e hoje governador reeleito de São Paulo. Cuidou de Arthur Lira e de Rodrigo Maia, que presidiram a Câmara, e de Davi Alcolumbre, que comandou o Senado. Atende ministros do Supremo, como Dias Toffoli e Gilmar Mendes, e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Nesta semana, é ela quem acompanha André Janones, aliado de Lula internado com arritmia após o debate da Band. Com tanta gente poderosa dos dois lados no consultório, sempre fez da discrição uma regra: diz que nunca falou de pacientes em reportagens e que não tem “qualquer tipo de objetivo de vida política”.
Pois a discrição acabou. Dias depois de vir à tona que Claudio Lottenberg, escolhido por Flávio Bolsonaro (PL) para o Ministério da Saúde, já defendeu não colocar nem um real a mais no SUS, Ludhmila se expôs. Em vídeo publicado nesta sexta (23/10), deixou de lado os conteúdos sobre infarto e diabetes e avisou: “Não mexam com o nosso SUS, porque nós não vamos permitir”.
A médica chama o SUS de “a maior riqueza desse país” e afirma que, entre 2018 e 2022, o sistema salvou vidas mesmo sofrendo ataques e mudanças que “destruíram as políticas públicas”. Diz ter participado da reconstrução do sistema entre 2022 e 2026 e elogia o governo Lula pela integração digital entre postos, UPAs, ambulâncias e hospitais. E fecha com um pedido direto ao eleitor: “Eu escolho a vida. Eu escolho o SUS. Faça como eu.”
Quem é Ludhmila
Goiana de Anápolis, Ludhmila se formou pela UnB em 2000 e fez residência em clínica médica no Hospital das Clínicas e em cardiologia no InCor, ambos da USP. Desde 2023 é professora titular de Emergências da Faculdade de Medicina da USP. Dirige a Cardio-Oncologia do InCor, coordena a do Icesp e comanda a cardiologia do Vila Nova Star, além das UTIs cardiológica e cirúrgica do DF Star, em Brasília. Figura entre os cientistas mais influentes do mundo no ranking de Stanford e recebeu o Prêmio Faz Diferença de O Globo em 2025.
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do Metrópoles
O “não” a Bolsonaro
Em março de 2021, Ludhmila foi sabatinada por Jair e por Eduardo Bolsonaro no Alvorada. Recusou o cargo após divergir sobre isolamento social, vacinação em massa e tratamento precoce, e depois relatou ameaças de morte.
O que disse o indicado de Flávio
Em um debate de 2019, quando presidia uma empresa de planos de saúde, Lottenberg chamou de equivocada a ideia de que falta dinheiro ao SUS e disse: “Eu não colocaria nada mais”. Ele também defendeu que o crescimento dos planos privados beneficia o sistema público.
Os números: o dinheiro do SUS em cada governo
Sob Bolsonaro, o orçamento da Saúde ficou preso ao teto de gastos (EC 95), criado no governo Temer e mantido pelo ex-presidente. Na prática, a regra desvinculou o piso de 15% da receita, e o gasto passou a ser corrigido apenas pela inflação. Em 2019, a aplicação federal em saúde caiu para 13,54% da receita, abaixo do mínimo constitucional. Pelos cálculos de Francisco Funcia, consultor do Conselho Nacional de Saúde, a Saúde teria cerca de R$ 142,8 bilhões naquele ano se o piso fosse aplicado, e não os R$ 122,6 bilhões efetivamente gastos.
Segundo o IEPS, o orçamento da Saúde aprovado na lei caiu de R$ 172,8 bilhões em 2019 para R$ 161,6 bilhões em 2020 e R$ 152,2 bilhões em 2021. Em 2022 foram R$ 164,1 bilhões, e só em 2023, já no governo Lula, o valor voltou a superar o de 2019, com R$ 178,7 bilhões. Os anos de pandemia receberam créditos extraordinários fora da lei orçamentária, que não entram nessa conta.
Com Lula, o teto foi revogado e o orçamento voltou a seguir o piso de 15% da receita corrente líquida. O orçamento federal da Saúde cresceu 30% entre 2022 e 2025, de R$ 179,1 bilhões para R$ 233,3 bilhões. Para 2026, foram sancionados R$ 271,3 bilhões.
Farmácia Popular: Bolsonaro x Lula
Os dois governos trataram o programa de formas opostas. Sob Bolsonaro, o Farmácia Popular encolheu. Em 2020, a equipe de Paulo Guedes cogitou extinguir o programa para bancar o Renda Brasil, e o orçamento daquele ano, de R$ 2,6 bilhões, era o menor desde 2013. Nenhuma nova farmácia foi credenciada no período, e o número de atendidos ficou estagnado: 21,3 milhões em 2019 e 20,7 milhões em 2022. Para 2023, a proposta de Orçamento enviada pelo governo cortava 59% da verba da gratuidade, de R$ 2,04 bilhões para R$ 842 milhões, para abrir espaço às emendas do orçamento secreto.
Sob Lula, o programa voltou a crescer. O orçamento passou de R$ 2,97 bilhões em 2023 para R$ 3,6 bilhões em 2024, R$ 4,2 bilhões em 2025 e R$ 7,6 bilhões previstos em 2026. O credenciamento de farmácias foi retomado em 2023, e hoje são cerca de 31 mil unidades em mais de 4.800 cidades, cobrindo 97% da população. Os beneficiários do Bolsa Família ganharam acesso gratuito a todos os itens em 2023, e desde fevereiro de 2025 todos os 41 itens são de graça para qualquer pessoa com receita. O resultado foi recorde: 24,7 milhões de atendidos em 2024 e 27,3 milhões em 2025, 6,6 milhões a mais que em 2022.
Por que isso salva vidas
Remédio de pressão e diabetes só funciona se o paciente toma todo dia, e o preço é o que mais faz gente abandonar o tratamento. Em 2020, sob Bolsonaro, um hipertenso gastava cerca de R$ 240 por ano com losartana na drogaria. Hoje, sob Lula, o mesmo remédio sai de graça para qualquer pessoa com receita.
Com o tratamento em dia, pressão e glicose ficam controladas, e caem os infartos, AVCs e complicações do diabetes. Estudo publicado na Revista de Saúde Pública, com dados de 5.566 municípios a partir de 2003, primeiro ano do governo Lula, mostrou que a expansão do programa reduziu as internações por hipertensão e diabetes em média 27,6% ao ano, e as mortes em 8%. E a conta também fecha para o SUS: manter um hipertenso tratado custa pouco mais de R$ 200 por ano, enquanto um único dia de UTI após um AVC custa cerca de R$ 2,5 mil.
O programa reduz internações e mortes na medida em que alcança mais pessoas. Sob Bolsonaro, o alcance ficou parado em torno de 21 milhões e a proposta era cortar 59% da gratuidade. Sob Lula, chegou a 27,3 milhões de brasileiros com remédio garantido.



