Nem tudo que reluz é ouro: Porsche em mansão abandonada guarda segredo


No terreno de uma mansão esquecida pelo tempo, erguida em uma das áreas mais valorizadas da capital da República, a velha máxima que “nem tudo que reluz é ouro”  ganha forma concreta. Empoeirada, mas ainda altiva, uma réplica de um clássico esportivo repousa silenciosa na garagem: inspirada no icônico Porsche Carrera 911, a peça chama atenção pela riqueza de detalhes, mesmo castigada pelo clima seco de Brasília. Ao seu lado, um discreto Fiat Marea parece compartilhar o mesmo destino: o esquecimento.

A cópia do lendário modelo alemão impressiona à primeira vista. Com acabamento refinado e ostentando um brasão que remete ao cavalo empinado, símbolo que lembra o da concorrente italiana Ferrari, o veículo sugere ter sido construído sobre uma plataforma comum em carros artesanais brasileiros, como os modelos da Puma ou Baja, frequentemente equipados com motores 1.8 AP.

Embora robusto, esse conjunto mecânico está longe de alcançar o desempenho do originalíssimo Porsche 911 Carrera de 1995, geração 993, equipado com um motor boxer de seis cilindros e 3.6 litros aspirado naturalmente. O coupé é referência mundial em confiabilidade e sonoridade.

Veja fotos da réplica de Porsche 911 Carrera:

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A cópia do lendário modelo alemão impressiona à primeira vista. Com acabamento refinado e ostentando um brasão que remete ao cavalo empinado
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A cópia do lendário modelo alemão impressiona à primeira vista. Com acabamento refinado e ostentando um brasão que remete ao cavalo empinado

Luís Nova/Especial para o Metrópoles

O veículo sugere ter sido construído sobre uma plataforma comum em carros artesanais brasileiros, como os modelos da Puma ou Baja
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O veículo sugere ter sido construído sobre uma plataforma comum em carros artesanais brasileiros, como os modelos da Puma ou Baja

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Ainda assim, no mercado de entusiastas, uma réplica bem conservada pode atingir valores próximos de R$ 150 mi
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Ainda assim, no mercado de entusiastas, uma réplica bem conservada pode atingir valores próximos de R$ 150 mi

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Empoeirada, mas ainda altiva, uma réplica de um clássico esportivo repousa silenciosa na garagem
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Empoeirada, mas ainda altiva, uma réplica de um clássico esportivo repousa silenciosa na garagem

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inspirada no icônico Porsche Carrera 991, a peça chama atenção pela riqueza de detalhes, mesmo castigada pelo clima seco de Brasília
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inspirada no icônico Porsche Carrera 991, a peça chama atenção pela riqueza de detalhes, mesmo castigada pelo clima seco de Brasília

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Ironicamente, ali, sob uma fina camada de poeira e folhas secas, seu valor parece reduzido a mero detalhe diante do cenário de abandono
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Ironicamente, ali, sob uma fina camada de poeira e folhas secas, seu valor parece reduzido a mero detalhe diante do cenário de abandono

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Réplica que custa caro

Ainda assim, no mercado de entusiastas, uma réplica bem conservada pode atingir valores próximos de R$ 150 mil. Ironicamente, ali, sob uma fina camada de poeira e folhas secas, seu valor parece reduzido a mero detalhe diante do cenário de abandono.

Escondida entre galhos sem poda, a residência contrasta com os jardins bem cuidados de um condomínio de alto padrão no Park Way, área nobre do DF, próxima ao Aeroporto Internacional de Brasília. O imóvel, que já foi lar de uma família, viralizou nas redes sociais por seu estado decadente e atmosfera sombria.

A equipe de reportagem do Metrópoles esteve no local e encontrou um cenário inquietante: móveis cobertos de poeira, teias de aranha que parecem tecidas há meses e uma piscina tomada por água escura, praticamente invisível sob a vegetação densa. O silêncio é interrompido apenas pelo som do vento atravessando estruturas deterioradas.

Na garagem, além do esportivo abandonado, há também um jetski, duas motocicletas e o próprio Marea. Todos deixados para trás, como peças de um quebra-cabeça incompleto.

Congelada no tempo

Apesar da deterioração externa, o interior da casa guarda detalhes quase intactos. Um vidro quebrado na porta principal,  protegida por correntes e cadeados, permite vislumbrar um ambiente parado no tempo. Quadros decorativos ainda pendem nas paredes, móveis permanecem organizados e um porta-retrato repousa sobre a lareira.

Sobre a mesa de centro, um tabuleiro de xadrez permanece montado, com peças cuidadosamente posicionadas, como se aguardassem o retorno de jogadores que jamais voltaram.

Esse contraste entre abandono e preservação alimenta o mistério que intriga moradores da região.

Dívidas, Justiça e descaso

Segundo registros oficiais, o imóvel foi adquirido em 1996 por um ex-servidor público e sua esposa, sendo esta a única propriedade registrada em seu nome. Com o passar dos anos, o casal deixou de pagar as taxas de condomínio — inicialmente em torno de R$ 300 mensais — acumulando uma dívida que hoje ultrapassa R$ 140 mil.

Após diversas tentativas frustradas de cobrança, o caso foi parar na Justiça. Em 2024, a casa foi penhorada. Um depoimento anexado ao processo revela uma frase atribuída ao proprietário, dita em 2023: “abandonei o imóvel, a Justiça que resolva”.

Mesmo aparecendo ocasionalmente no local, ele nunca buscou regularizar a situação, tampouco realizou qualquer manutenção ou retirada dos bens abandonados.

Leilão e incertezas

O terreno, com mais de 2 mil metros quadrados e estrutura de dois andares, área de lazer e pergolado — hoje parcialmente desmoronado — será leiloado para quitar as dívidas. O primeiro leilão está marcado com lance inicial superior a R$ 1 milhão. Caso não haja interessados, uma segunda tentativa ocorrerá com valor reduzido.

Enquanto isso, a propriedade segue como um símbolo de decadência em meio ao luxo — um lembrete silencioso de que riqueza sem cuidado pode rapidamente se transformar em ruína.

Alerta e mistério

Além do impacto visual, o abandono traz riscos concretos. Moradores relatam que o terreno está repleto de perigos: folhas acumuladas que afundam sob os pés como areia movediça, água parada propícia à proliferação de insetos e árvores ameaçando cair.

O que antes foi um espaço de conforto e ostentação hoje se tornou um cenário de alerta e mistério. A casa permanece lá, imóvel, cercada por dúvidas. E enquanto o tempo avança, a pergunta continua sem resposta: o que levou ao abandono de tudo isso?

Porque, ali, mais do que poeira e silêncio, permanece a sensação inquietante de que algo foi deixado para trás, não apenas bens, mas histórias interrompidas.

O outro lado

Por meio de nota, o dono do lote no Park Way negou a situação de abandono. Segundo o homem, os veículos e móveis estão trancados e protegidos dentro da casa, que tem “acompanhamento” e “constante visitação” dele.

Ao Metrópoles, o proprietário disse que o imóvel passa por “litígio em um processo de separação judicial e divisão de bens entre cônjuges”. Além disso, atribuiu a responsabilidade da atual situação do terreno à “incompetência da Justiça” no processo de divórcio.

Conforme informou, a ex-companheira não foi intimada, prejudicando a “solução do problema” e majorando “a dívida” do condomínio. De acordo com ele, a falta da citação da mulher também “impedirá a realização do leilão”. “Como foi o caso de outro imóvel leiloado indevidamente em 2014”, declarou.

Na nota, o proprietário confirmou a existência de outros processos por inadimplência. “[São] sobre os veículos que lá [na casa colocada a leilão] estão devidamente guardados, aguardando a solução judicial”, explicou.

Ele negou, ainda, ter cometido agressões ou ameaças: “Posso afirmar que são mais especulações infundadas e mentirosas, já que nunca agredi ninguém em minha vida. A única questão, quanto a alguns profissionais da Secretaria de Saúde, foi devidamente denunciada na ouvidoria do GDF”.



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