Há histórias que parecem impossíveis de tão complexas e a de Gustavo Zerbino é uma delas. Em outubro de 1972, aos 19 anos, o estudante de medicina e jogador de rúgbi embarcou no Voo 571 da Força Aérea do Uruguai rumo ao Chile, ao lado de amigos e companheiros de equipe.
O que era para ser uma viagem feliz, se tornou uma das tragédias mais impactantes do mundo. Em 13 de outubro de 1972, o avião com a equipe de rúgbi uruguaia colidiu com a Cordilheira dos Andes, e caiu em um ponto chamado “Vale das Lágrimas”, um espaço de difícil acesso.
Durante 72 dias, Zerbino e os demais sobreviventes enfrentaram condições extremas, entre frio intenso, isolamento absoluto e uma luta diária pela vida.
Décadas depois, ele transforma toda a adversidade em uma missão: a de compartilhar pelo mundo uma poderosa mensagem sobre resiliência, trabalho em equipe, liderança e esperança.
“Enquanto houver esperança e sonhos, haverá vida. Há muitas pessoas vivas, mas sem esperança ou sonhos, mortas por dentro, pois apenas se arrastam pela vida. Portanto, para vencer a morte, temos que enfrentá-la de frente, e a morte é vencida com a vida, tendo projetos, planos, um amanhã que permita viver.”
Gustavo Zerbino
As lições aprendidas nos Andes hoje servem de inspiração para milhares de pessoas em diferentes países. E no dia 26 de maio de 2026, às 20 horas, Zerbino sobe ao palco do Ulysses Centro de Convenções para dividir a trajetória e refletir sobre como os desafios podem revelar o melhor da condição humana.
Em entrevista ao Metrópoles, ele relembra os dias nos Andes e em como essa experiência lhe moldou como pessoa.
Zerbino, você passou por experiências intensas ainda muito jovem. Olhando para tudo isso, existe alguma lembrança ou parte dessa história que ainda te emocione ou te custe falar?
Na cordilheira, a maior energia que existe é o amor. Nossa história não é um milagre, mas tem muito de milagre. E não é uma tragédia, mas tem muito de tragédia.
É uma história de amor, amizade, solidariedade e vocação de serviço. Que são valores com um objetivo em comum.
Eu não escolhi ser um voluntário para essa prova, mas como aconteceu comigo e com meus amigos, tivemos que aceitar. Para aceitar isso, basta baixar um pouco a mente até o coração.
Porque na mente reside esse potencial mágico limitado, onde criticamos, julgamos, comparamos e somos infelizes, pois o ego — o ego é insaciável.
Mas. aqui embaixo (no coração), você está no presente. Somos todos iguais, somos todos irmãos e irmãs, e não julgamos. Somos parte de uma equipe, uma engrenagem com um objetivo comum, e foi isso que provamos ao mundo na Cordilheiras.
Nenhum dia na minha vida acordei no meio da noite com um pesadelo. Nenhum dia da minha vida me lembro de estar na montanha. É apenas mais um dia como todos os outros que vivi. Só que para o mundo, é algo diferente do normal.
Mas, eu tenho 72 anos e passei apenas dois meses e meio nas montanhas. Esse é apenas mais um fato na minha vida, mas ainda impacta as pessoas.
Enquanto para mim, não é nada mais do que uma oportunidade de mostrar, neste laboratório existencial em que vivemos, o potencial ilimitado da humanidade.

Como foi para você lidar com o frio intenso, o medo, a falta de comida e toda a pressão emocional no meio das montanhas?
No Uruguai, a montanha mais alta tem 500 metros, nunca teve neve nem temperatura abaixo do zero. Ou seja, quando estávamos na cordilheira era tudo novo. E quando a mente não sabe algo, ela diz que você vai morrer, que vai te abandonar.
Então, tivemos que diminuir o volume da nossa mente e seguir em frente um pouco, ao estilo Matrix, aceitando a realidade como ela é. E quando você aceita e não reclama, você faz parte da solução. Quando você reclama, faz parte do problema.
Os limites que estão na mente existem para serem quebrados, para serem despedaçados. E aprendemos que 40 graus abaixo de zero é muito frio, certo? Mas, 35 graus abaixo de zero é um pouco melhor. Quando você aprende que a dor é inevitável, se pode relativizar quando comparada com outras coisas.
Contudo, o sofrimento é mental. E na cordilheira era proibido reclamar, porque no lugar mais profundo do inferno, no caos total, você só pode subir se aceitar a realidade.
Então, não podíamos aumentar a dor reclamando do impossível, e para quebrar o silêncio precisávamos de boas notícias, uma história.
Até mesmo um prato de comida muito delicioso que iríamos comer quando saíssemos das montanhas, como o capelettis à la Caruso ou a milanesa da minha avó, fazíamos isso para nos motivar um pouco. E funcionava.
Olhando para trás, que parte daquele jovem ainda segue vivo em suas decisões?
Todos os dias quando acordo, eu renasço. Tenho uma vida e tenho 1.440 minutos para fazer o que quiser e ser feliz. Em outras palavras, continuo acordando com a mesma alegria de viver, o mesmo entusiasmo, a mesma gratidão. Isso se chama estado de graça.
Quando você adormece agradecendo, acorda cheio de alegria. Simplesmente ser grato por estar vivo te conecta a esse potencial infinito e lhe dá inúmeras possibilidades de fazer o que quiser, acompanhado de seus amigos, da sua família ou da equipe da empresa para qual trabalha.
Metrópoles Talks com Gustavo Zerbino
Data: 26 de maio de 2026, às 20h
Local: Ulysses Centro de Convenções — Brasília (DF)
Ingressos: Bilheteria Digital


