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Policial sugeriu roubo para vítima quitar “dívida” de extorsão: “Dois palitos”


Um escrivão da Polícia Civil preso nessa terça-feira (12/5) por supostamente integrar um esquema de extorsão contra Fábio Oliveira Silva — preso em 2004 por envolvimento no sequestro da mãe do ex-jogador Robinho — passou a sugerir que a agora vítima realizasse um “trampo” como forma de levantar dinheiro para quitar uma dívida, milionária, cobrada por um grupo de policiais civis da Grande São Paulo.

O “trampo”, como apurou o Metrópoles, seria o desvio de drogas, introjetadas em cargas de produtos legalizados. No submundo habitado por policiais corruptos, a prática é conhecida como “puxada”. Em conversas via WhatsApp, o policial chega a mencionar o uso de rastreador em uma carreta, acrescentando que o crime poderia ser executado em “outra delegacia”.

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O escrivão João Ruper Rodrigues, do 1º Distrito Policial de Taboão da Serra, foi preso nessa terça-feira (12/05), durante operação da Corregedoria da Polícia Civil. Também foram detidos o investigador Tiago Henrique Sousa Carvalho, conhecido como Japa, o investigador Roberto Castelano, o Bateria, e o agente policial Diogo Prieto Júnior, o Careca.

Eles são investigados por suposta extorsão qualificada e associação criminosa armada. Suas defesas não foram localizadas. O espaço segue aberto para manifestações.

“Coloca o rastreador na carreta”

As conversas atribuídas a João ocorreram após o grupo já ter recebido R$ 303 mil de Eder Wilson de Jesus Silva, primo de Fábio, conhecido como Véio. Segundo a investigação, o dinheiro foi entregue na madrugada de 3 de abril, em Barueri, e levado posteriormente para a sede da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Carapicuíba, onde Fábio era mantido.

Dias depois, pressionando pela continuidade dos pagamentos, João passou a sugerir uma forma de “levantar” o restante do dinheiro.

“Enquanto isso, a gente faz o trampo, mano. Eu tô com o rastreador na mão pra entregar pra vocês, mano. (…) A gente coloca o rastreador na carreta aí, mano”, diz trecho de áudio atribuído ao policial.

Na mesma gravação, João diz que o suposto crime poderia ocorrer em outra unidade policial, porque no local anterior, ou seja na Dise de Carapicuíba, “já caiu uma vez” — expressão interpretada na investigação como referência ao fato de Fábio e conhecidos dele já terem sido levados anteriormente naquele endereço.

“A gente faz esse trampo em outro lugar, com outra galera minha (…) porque já caí uma vez ali. (…) A gente faz em outra delegacia”, diz outro trecho da conversa, atribuído ao escrivão João Ruper.

O Metrópoles apurou ainda que o escrivão defendia o plano como uma forma de quitar a dívida que o grupo cobrava das vítimas, a qual naquele momento totalizava R$ 1 milhão, descontando os R$ 303 mil já pagos. “É o tempo de fazer o trampo, cair dinheiro e a gente pagar os caras, mano”, diz a sequência da mensagem.

Os rastreadores, como apurou a reportagem, são colocados em carretas no momento em que drogas também são nelas introduzidas.  O monitoramento do veículo é feito até que transite na área de atuação da delegacia lotada por policiais corruptos, para que simulem um flagrante e, com isso, desviem parte da carga ilícita, ou ainda a substituam por droga de menor pureza.

“A gente levanta essa moeda rapidinho”

A investigação ainda identificou que o escrivão insiste para que Eder e Fábio aceitem participar do suposto esquema. O policial afirma que eles não “tomariam chuveirada” — termo usado para indicar eventual prisão ou prejuízo — e sugere usar outra delegacia para a ação.

“A gente pode fazer em qualquer outro lugar, qualquer outra delegacia mano. Eu conheço todo mundo caralho.”

Na sequência, João reforça que o objetivo seria arrecadar dinheiro rapidamente para quitar a cobrança.

“A gente levanta essa moeda rapidinho caralho. Rapidinho mano. É dois palito cara.”

O policial ainda afirma que o grupo poderia realizar outros “trampos” posteriormente. “Vamos fazer uma, vamos fazer outra e vamos fazendo mano.”

Cobranças e ameaças

De acordo com a investigação, João manteve contato constante com Eder entre os dias 2 e 23 de abril. As mensagens mostram cobranças reiteradas sobre o restante da quantia exigida inicialmente pelos policiais, estipulada em R$ 1 milhão.

Em uma das conversas, João encaminha um cronograma manuscrito com os supostos prazos para pagamento, divididos em quatro parcelas. Com a primeira já quitada, de R$ 303 mil, faltava ainda pagar, segundo a lógica dos policiais corruptos, uma de R$ 197 mil e duas finais de R$ 250 mil cada.

Posteriormente, conforme depoimentos prestados pelas vítimas, Tiago Henrique Sousa Carvalho, o Japa, teria negociado a redução da cobrança para R$ 500 mil.

Nesse meio tempo, Fábio procurou a Corregedoria da Polícia Civil e formalizou denúncia sobre a suposta extorsão sofrida.

Delegacia usada como cativeiro

Segundo a investigação, a história começou em 2 de abril, quando cerca de oito homens que se apresentaram como policiais civis invadiram a casa de Fábio, em um condomínio no Jardim Ângela, zona sul paulistana.

Ele afirmou que foi colocado em uma viatura e levado à Dise de Carapicuíba, após os agentes ameaçarem forjar um flagrante de tráfico de drogas caso ele não colaborasse.

Na unidade policial, Fábio disse ter permanecido trancado por cerca de dez horas em uma sala no andar superior do prédio, até que Eder reunisse dinheiro suficiente para efetuar parte do pagamento exigido pelos policiais.

A Corregedoria afirma que o grupo recebeu R$ 303 mil naquela madrugada e continuou cobrando o restante posteriormente, por meio de mensagens, áudios e ligações.

A investigação segue sob sigilo.



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