A gestão Ricardo Nunes (MDB) rastreou R$ 13 milhões em notas suspeitas na prestação de contas de um contrato de instalação de pontos Wi-fi pela ONG da produtora do filme Dark Horse.
O Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido pela produtora Karina Ferreira da Gama, é alvo de investigação sobre supostos desvios de contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo. A Polícia Civil de São Paulo apura se o contrato relacionado ao Wi-fi foi usado para pagar despesas da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), produzida pela Go Up Entertainment, empresa de Karina.
Na quarta-feira (1º/7), a gestão Nunes emitiu uma notificação sobre inconsistências em uma série de notas fiscais apresentadas pela ONG, referentes ao primeiro semestre de 2025. O questionamento da prefeitura aponta desde informações vagas sobre os gastos até notas que acabaram canceladas logo depois da emissão, tornando o gasto nulo.
A maior parte dos valores refere-se a despesas com empresas que estão na mira da Polícia Civil em apuração sobre possíveis desvios pelo ICB. Dos R$ 13 milhões, R$ 11 milhões foram com notas da Make One, Ultra IP, Complexsys e Favela Conectada. No caso dessas empresas, o problema encontrado foi a falta de detalhamento dos gastos, uma vez que a prestação de contas não especifica “área geográfica de atuação, os pontos de acesso instalados ou o escopo exato das atividades”.


Jim Caviezel no 1º trailer de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro
Reprodução

Cena do 1º trailer de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro
Reprodução

Cena do 1º trailer de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro
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Série de produtora de Dark Horse teve parecer favorável de SP
Ilustração/Metrópoles

Produtora de Dark Horse
Lara Abreu / Arte Metrópoles

Polícia investiga desvio em programa Wi-Fi Livre da Prefeitura de São Paulo
Fabio Arantes/ Secom
Um pagamento de R$ 500 mil feito à Favela Conectada teve a nota fiscal cancelada pela própria empresa dias após a prefeitura notificar a irregularidade. Agora, a administração municipal exige a devolução integral do valor. Segundo autoridades do Ministério Público de São Paulo (MPSP), Alex Leandro Bispo, que representa a Favela Conectada, teria entrado para o Primeiro Comando da Capital (PCC) quando cumpriu pena na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior paulista.
Em outro caso, a prefeitura identificou três pagamentos à JR Feijão Ltda, empresa do setor alimentício, somando R$ 406.752,50 e todos realizados em 11 de abril. As notas fiscais — emitidas em 10 de abril sob a descrição genérica de “aquisição de material” — foram canceladas pela própria empresa seis dias depois, em 16 de abril. Como as notas perderam validade após o repasse dos valores, a prefeitura classificou os gastos como ilegítimos e determinou devolução dos valores.
A prefeitura também questionou dois pagamentos à Talk Comunicações, de R$ 166.666 e R$ 181.818 feitos em março e maio deste ano a título de “contrato de comunicação massificada”, somando R$ 348.484. Segundo a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (Smit), as notas de serviço não especificam as praças atingidas nem detalham as campanhas realizadas, o que levou o órgão a exigir do Instituto Conhecer Brasil relatórios de veiculação e comprovantes de mídia para validar a despesa.
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A prefeitura fixou prazo de 30 dias, a contar do recebimento do ofício, para que o Instituto Conhecer Brasil apresente justificativas por escrito e a documentação retificadora referente a todos os itens questionados. Caso contrário, a empresa pode ser obrigada a devolver os valores.
Conforme o Metrópoles mostrou, o faturamento do ICB cresceu 170 vezes em três anos. A receita declarada pela entidade passou de R$ 306 mil no fim de 2022 para R$ 54 milhões no fim de 2025. O valor contempla R$ 51,9 milhões em “parcerias e subvenções governamentais“, R$ 2 milhões em “subvenções com educação” e R$ 2,6 milhões em “receita com prestações de serviço“.
O que diz o ICB
O ICB afirmou ao Metrópoles que não recebeu notificação relativa a valores de R$ 13 milhões em notas suspeitas vinculadas ao contrato de prestação de serviços de Wi‑Fi. “Até o momento, toda a nossa prestação de contas junto aos órgãos competentes segue dentro da regularidade, conforme os procedimentos previstos em contrato”, informou.
A entidade afirma, ainda, que “permanece à disposição para prestar esclarecimentos às autoridades e aos veículos de comunicação sempre que for oficialmente comunicada sobre qualquer questionamento ou procedimento envolvendo suas atividades”.
Operação Sem Wi-fi
A Operação Wi-Fi, realizada pela Polícia Civil, aponta que a Prefeitura de São Paulo pagou um valor supostamente 230% maior do que o estipulado no mercado em um contrato referente à instalação de pontos de Wi-Fi em comunidades periféricas da capital paulista.
Segundo a investigação, enquanto a empresa municipal Prodam cobrava R$ 306, mais R$ 200 pela manutenção mensal por ponto, o acordo com o ICB estipulou o pagamento de R$ 1.800 fixos por ponto, um valor injustificadamente superior aos parâmetros de mercado.
Em nota enviada ao Metrópoles, a Prefeitura de São Paulo afirmou que o custo estimado na parceria com o instituto para 2026 corresponde a R$ 1.280 por ponto/mês. A gestão alega que o valor é “significativamente menor do que as propostas recebidas em 2022” que, de acordo com a administração municipal, giravam em torno de R$ 2.026,26 por ponto/mês e R$ 5.092,14 por ponto/mês.
Entenda as suspeitas
- Falta de capacidade técnica: a polícia apontou que o chamamento público teve a participação exclusiva do ICB, uma entidade considerada sem experiência no setor de telecomunicações, com atuações somente em feiras de livros e eventos religiosos.
- Superfaturamento: enquanto a empresa pública Prodam cobrava R$ 306 pela manutenção mensal por ponto, o acordo com o ICB estipulou o pagamento de R$ 1.800 fixos por ponto, um valor injustificadamente superior aos parâmetros de mercado.
- Descumprimento de metas e fraude em aditivos: a entidade instalou apenas 3.200 dos 5.000 pontos previstos. Para ocultar a demora, foram celebrados três termos aditivos em intervalos de poucos dias.
- Pagamentos indevidos e antecipados: a administração municipal teria realizado a antecipação de R$ 26 milhões sem a devida contraprestação. Foram identificados repasses relativos a 3.200 pontos quando, na realidade, apenas seis funcionavam no período.



