Belo Horizonte – Em menos de três dias, a capital mineira foi palco de três crimes brutais contra mulheres, que provocaram comoção e voltaram a expor a escalada da violência de gênero em Minas Gerais. Foram dois feminicídios e uma tentativa de feminicídio com extrema violência, todos cometidos por companheiros ou namorados das vítimas.
Os casos ocorreram entre segunda-feira (20/7) e terça-feira (21/7) e têm um elemento em comum:
Segundo a polícia, as vítimas foram atacadas por homens com quem mantinham relacionamento afetivo.
Em outro, uma mulher foi encontrada morta dentro do apartamento onde morava após o namorado deixar o prédio carregando malas. Já na terceira ocorrência, uma mulher sobreviveu após ser espancada e arremessada da sacada de um imóvel na Região Leste da capital.
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do Metrópoles
A sequência de crimes acontece poucas semanas após o Metrópoles mostrar que Minas Gerais pode registrar, em 2026, o maior número de vítimas de feminicídio — entre casos consumados e tentados — desde o início da série histórica.
Capitã da PM morta pelo marido
O caso de maior repercussão foi a morte da capitã da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) Michele Leão Azevedo, de 41 anos. Ela foi levada já sem vida ao Hospital Odilon Behrens pelo marido, o 3º sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37 anos.
A Polícia Civil apontou que a oficial apresentava múltiplas lesões pelo corpo, traumatismo craniano, grave ferimento na face e marcas compatíveis com agressões. O militar alegou que a esposa sofreu uma queda após práticas sexuais consensuais, mas a versão passou a ser contestada diante das lesões encontradas pela perícia e de outros elementos da investigação.
Além do feminicídio, o sargento também foi preso por tráfico de drogas depois de ser flagrado tentando descartar comprimidos de ecstasy no banheiro do hospital. Na quarta-feira (22/7), a Justiça converteu a prisão em flagrante em preventiva.

Durante o velório da capitã, o porta-voz da PMMG, capitão Rafael Veríssimo, afirmou que a corporação “vai cortar na própria carne” quando crimes dessa natureza envolverem policiais militares e confirmou que o sargento poderá ser excluído da instituição caso seja condenado.
A reportagem do Metrópoles também ouviu o síndico do condomínio onde o casal morava. Segundo Dimas Oliveira, festas, gritos e discussões eram frequentes no apartamento. “Na maioria das vezes, depois das festas, a gente sabia que terminava em conflito”, afirmou. Ele disse ainda que moradores evitavam registrar reclamações formais por medo, já que os dois eram policiais militares.
Mulher encontrada morta após namorado sair com malas
Poucas horas antes, outro caso havia mobilizado a Polícia Civil. Stifanie Ribeiro Firmino Silva, de 36 anos, foi encontrada morta dentro do apartamento onde morava, no bairro Camargos, Região Oeste de Belo Horizonte.
O caso começou a ser descoberto depois que vizinhos estranharam o comportamento do namorado da vítima, visto deixando o condomínio carregando duas malas. Outro detalhe chamou a atenção dos moradores. A mulher costumava trocar mensagens de áudio com uma vizinha, mas, de repente, passou a responder apenas por texto.

A mudança levantou suspeitas e levou ao acionamento da Polícia Militar. No dia seguinte, o namorado, de 24 anos, apresentou-se espontaneamente no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), confessou o crime e acabou preso em flagrante por feminicídio. A Polícia Civil ainda investiga a motivação e a dinâmica da morte.
Espancada e jogada da sacada
O terceiro caso ocorreu na madrugada de terça-feira (21/7), no Bairro Jonas Veiga, Região Leste de Belo Horizonte. Uma mulher de 31 anos sobreviveu após ser espancada e arremessada da sacada do terceiro pavimento de uma residência pelo companheiro, Carlos Antonio Avelar de Oliveira.
Segundo a investigação, ela sofreu socos, chutes, enforcamentos e golpes com garrafas de vidro antes de ser lançada da sacada. Uma amiga da vítima tentou impedir as agressões, mas também foi atacada. A mulher foi socorrida em estado grave para o Hospital João XXIII.
Nesta quarta-feira (22/7), a Justiça converteu a prisão em flagrante do suspeito em preventiva. Na decisão, o juiz Diego Gómez Lourenço destacou a “extrema brutalidade” da ação, o elevado grau de periculosidade do investigado e seu histórico criminal, que inclui condenações por roubo e tráfico de drogas.
Violência segue em alta em Minas
Os três casos reforçam uma tendência que vem preocupando especialistas. Levantamento obtido pelo Metrópoles mostra que Minas Gerais registrou 2.725 vítimas de feminicídio — entre crimes consumados e tentativas — entre janeiro de 2019 e maio de 2026.
Somente nos cinco primeiros meses deste ano foram contabilizadas 148 vítimas, sendo 63 feminicídios consumados e 85 tentativas. Se o ritmo permanecer, 2026 poderá encerrar com o maior número de ocorrências desde o início da série histórica.
A professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenadora da Rede Feminina de Estudos sobre Violência, Justiça e Prisões, Ludmila Ribeiro, afirma que cerca de 90% dos feminicídios são classificados como feminicídios íntimos, cometidos por companheiros ou ex-companheiros.
Segundo ela, o crescimento dos casos revela que a denúncia, por si só, não basta.
“Hoje as mulheres denunciam mais, mas o Estado ainda demonstra dificuldades para fiscalizar efetivamente as medidas protetivas. Precisamos pensar em novas formas de proteção para que essa responsabilidade deixe de recair sobre quem já sofreu a violência”, afirma.
A pesquisadora também alerta para outro fator de risco: a presença de armas de fogo nas residências. Dados analisados por ela mostram que mulheres vítimas de violência doméstica que convivem em casas com armas têm 27 vezes mais chances de serem assassinadas do que aquelas que vivem em ambientes sem armamento.
Para Ludmila, reduzir os índices de feminicídio depende de uma atuação integrada entre segurança pública, saúde, educação e assistência social.
“Grande parte desses autores cresceu em ambientes onde a violência contra a mulher era naturalizada. É preciso romper esse ciclo antes que ele termine em tragédias como as registradas nesta semana”, conclui.



