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O que o voto desfez


Voto é secreto. Suas consequências, nem sempre.

Luciana Gramacho | Psicanalista.

O resultado de uma eleição presidencial costuma ser apresentado em números. Votos válidos, percentuais, abstenções, diferenças entre candidatos. A apuração termina quando se conhece o vencedor. Mas existe outra contagem, impossível de realizar, que começa justamente depois do resultado: quantas amizades terminaram, quantas famílias deixaram de se reunir, quantos casamentos passaram a enfrentar a possibilidade de separação e quantas pessoas descobriram que já não conseguiam olhar da mesma maneira para alguém que conheciam durante toda a vida?

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O voto é secreto. Suas consequências, nem sempre. No segundo turno de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Mais de 124 milhões de votos válidos foram contabilizados. O resultado estabeleceu quem governaria o país, mas não encerrou as divergências que atravessaram famílias, amizades e casamentos. A apuração terminou. As conversas, os afastamentos e os reencontros ainda estavam por acontecer.

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A explicação mais frequente é a polarização. O termo descreve a divisão, mas não alcança inteiramente o que acontece entre pessoas que já conheciam as opiniões umas das outras. Muitos desses conflitos não começaram na eleição. Comentários preconceituosos eram ouvidos, posições autoritárias eram defendidas, diferenças econômicas e religiosas provocavam discussões. Depois alguém mudava de assunto. A convivência prosseguia.

O que mudou foi a possibilidade de continuar tratando essas posições como características particulares de alguém querido. Uma opinião expressa durante o jantar podia ser atribuída ao temperamento, à influência de terceiros ou à falta de informação. O voto tornou mais difícil separar aquilo que uma pessoa dizia daquilo que estava disposta a apoiar politicamente.

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A escolha de um presidente envolve projetos de sociedade, distribuição de recursos, direitos, instituições e formas de exercício do poder. Seus efeitos ultrapassam a intenção individual de cada eleitor. Alguém pode votar preocupado com a economia e apoiar, pela mesma escolha, propostas que outra pessoa considera uma ameaça à própria existência. O fato de não desejar pessoalmente determinada consequência não elimina a responsabilidade de participar da decisão que a torna possível.

Essa contradição alcança o interior das famílias. Um pai que sempre se preocupou com a segurança da filha pode apoiar um projeto político que ela considera perigoso para seus direitos. A filha que reconhece o cuidado paterno pode decidir que já não deseja frequentar sua casa. Nenhum dos dois precisa estar mentindo sobre o afeto. Sentimentos verdadeiros podem coexistir com escolhas inconciliáveis.

Nas amizades, o estranhamento assume outra forma. Pessoas que se ajudaram durante décadas passam a questionar o significado daquela proximidade. Como alguém capaz de tanta generosidade pode defender posições consideradas intolerantes? Como uma amizade construída sobre experiências de confiança pode sobreviver à descoberta de desacordos tão profundos? A pergunta deixa de ser simplesmente por que o outro pensa diferente. Passa a ser como continuar reconhecendo nele a pessoa que sempre esteve presente.

Mas o voto também revela expectativas que pouco têm a ver com princípios políticos. Quem sustenta financeiramente um familiar pode sentir-se traído ao descobrir sua preferência eleitoral. O empresário que considera ter protegido os empregos de seus funcionários pode interpretar o voto deles como ingratidão. A ajuda oferecida e o salário pago aparecem, então, como argumentos para exigir fidelidade.

O benefício que se apresentava como expressão de generosidade ou reconhecimento pelo trabalho passa a ser cobrado como uma dívida política. Quem recebe ajuda deveria concordar. Quem depende do emprego deveria demonstrar lealdade. A eleição não criou necessariamente essa expectativa de obediência. Ofereceu uma ocasião em que ela pôde ser declarada.

Nas comunidades religiosas, pessoas reunidas pela mesma fé chegam a escolhas políticas opostas. Algumas questionam como determinados votos podem ser conciliados com princípios de solidariedade, respeito e cuidado com o próximo. Outras entendem que suas convicções religiosas justificam precisamente aquelas escolhas. O conflito atinge a autoridade de cada um para definir o que significa permanecer fiel à própria crença.

Esses rompimentos não podem ser colocados no mesmo plano. Uma pessoa que se afasta de quem defende medidas contrárias aos seus direitos enfrenta uma questão diferente daquela vivida por alguém que se considera desobedecido por um funcionário. A indignação diante de uma ameaça concreta não equivale ao ressentimento de quem perdeu a influência que imaginava exercer. A palavra traição pode aparecer em ambas as situações, mas não designa necessariamente a mesma experiência.

O voto passou a funcionar, em certas relações, como uma espécie de prova definitiva do caráter. Gestos anteriores de cuidado foram reexaminados, declarações antigas adquiriram novos significados e lembranças afetuosas passaram a conviver com a desconfiança.

Uma pessoa não se deixa conhecer inteiramente por um único gesto, embora certos gestos sejam suficientes para tornar uma relação insustentável.

A psicanálise oferece uma contribuição precisamente nesse ponto. A convivência prolongada não garante conhecimento completo do outro. Ao contrário, a familiaridade permite que determinadas contradições permaneçam fora de questão. Conhecer alguém durante trinta anos pode significar saber quais assuntos evitar, quais comentários desculpar e quais diferenças não levar adiante para preservar a relação.

Mas existe uma diferença entre desconhecer e consentir em não examinar aquilo que se conhece. Nem toda convivência sustentada pelo silêncio resulta de uma ilusão. Uma pessoa pode reconhecer perfeitamente as posições políticas de um familiar, discordar delas e continuar frequentando sua casa. O silêncio também pode ser uma decisão, e nem sempre uma decisão inconsciente.

A eleição altera as condições desse acordo. Aquilo que era conhecido passa a ter outro peso quando se transforma em escolha política com consequências coletivas. A divergência deixa de ocupar apenas o espaço das conversas e passa a participar da maneira como cada um avalia a responsabilidade do outro.

Existe, porém, uma pergunta que costuma ficar fora dessas discussões. Quando alguém declara que já não consegue conviver com uma pessoa por causa de seu voto, o que exatamente se tornou intolerável? A escolha política, suas consequências ou o reconhecimento de que, durante anos, foi possível conviver com posições semelhantes sem lhes atribuir o mesmo peso?

A pergunta não diminui a gravidade de uma escolha eleitoral. Tampouco responsabiliza quem sofre suas consequências pelas posições defendidas por outra pessoa. Ela introduz um problema diferente: o limite que agora se apresenta como evidente pode ter sido construído ao longo de uma história em que muitos outros limites foram negociados, adiados ou abandonados.

Em algumas relações, a surpresa não está na descoberta de quem o outro é. Está na descoberta de quanto se estava disposto a tolerar para continuar amando.

Compreender essa história, entretanto, não decide o que fazer com ela. Descobrir uma contradição não determina se alguém deve permanecer, afastar-se ou estabelecer novos limites. A psicanálise não dispõe de uma resposta que possa substituir a responsabilidade de quem terá de viver com as consequências da própria decisão.

Pessoas que votam no mesmo candidato não necessariamente compartilham as mesmas razões. O apoio pode resultar de convicção ideológica, identificação pessoal, interesses econômicos, rejeição ao adversário ou temor de perder uma condição de vida. Essas motivações não anulam a responsabilidade pelo voto, mas impedem que se tome uma escolha política como explicação completa de quem a realizou.

O inverso também merece atenção. Pessoas que votam em candidatos opostos podem partir de preocupações semelhantes e chegar a respostas incompatíveis. A insegurança econômica, o medo da violência e o desejo de proteção podem encontrar destinos políticos distintos. A semelhança das preocupações não apaga as diferenças entre os projetos escolhidos.

A eleição tornou visíveis diferenças que a convivência conseguia acomodar e produziu outras, relacionadas à maneira como cada um passou a interpretar o voto alheio.

O afastamento pode representar uma decisão necessária. Nenhuma história compartilhada obriga alguém a permanecer próximo de quem defende posições que considera incompatíveis com sua dignidade ou segurança. Mas o rompimento também pode trazer um sofrimento inesperado. O amigo que agora desperta indignação foi aquele que esteve presente durante uma perda. O familiar cuja escolha parece inaceitável permanece associado a experiências reais de cuidado.

Não é preciso desmentir essas lembranças para sustentar uma decisão política. O passado não se torna falso porque o presente tornou a convivência impossível. Reconhecer que alguém foi importante, generoso e amado não torna aceitável tudo o que escolhe defender.

Algumas famílias voltarão a se reunir. Outras manterão distância. Certas amizades serão retomadas com limites que antes não existiam. Também haverá reconciliações sustentadas pelo silêncio. O almoço de domingo voltará a acontecer, os assuntos serão cuidadosamente escolhidos e a ausência de discussões poderá ser confundida com o desaparecimento do conflito.

Mas o silêncio já não terá necessariamente o mesmo significado. Antes, podia representar uma maneira de evitar desconfortos. Agora, pode ser um limite deliberado ou a condição exigida para que nada precise mudar.

O voto revelou princípios, interesses, identificações e limites de tolerância. Também expôs expectativas de obediência, necessidades de pertencimento e imagens do outro que a convivência havia tornado familiares. Em certas situações, o que se perdeu foi a confiança. Em outras, a autoridade que alguém acreditava possuir. E, em muitas, a possibilidade de continuar amando sem enfrentar uma contradição.

A democracia assegura a cada eleitor o direito de escolher sem pedir autorização à família, aos amigos, ao empregador ou à comunidade religiosa. Não assegura que essa escolha seja recebida sem consequências por aqueles que terão de conviver com ela.

O resultado das urnas decide quem exercerá o poder político. Não decide quais relações sobreviverão ao reconhecimento das diferenças que a eleição tornou incontornáveis.

Resta uma pergunta que ultrapassa o conflito eleitoral: quando alguém afirma que o outro já não é a pessoa que conhecia, está diante de uma transformação ou do fim da possibilidade de continuar ignorando aquilo que sempre esteve presente?

Luciana Gramacho

Psicóloga e psicanalista, com 25 anos de experiência clínica.

*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.



Fonte: Gazetaweb